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Sabeis

Crônicas

Torcida da Pátria e o Silêncio das Arquibancadas

(19/10/26)

O país vibra por um gol, mas não se levanta por uma escola. É curioso como o brasileiro se transforma diante de um campo de futebol: grita, chora, ameaça, invade, exige. Cobra desempenho, raça, entrega. Quer ver o jogador suando sangue, como se o amor à camisa fosse questão de honra nacional. Mas quando o assunto é política, saúde, educação, segurança, o mesmo brasileiro se acomoda no sofá, muda de canal e suspira: “não adianta reclamar”. A paixão que move estádios não atravessa a rua até o Congresso. E talvez aí esteja nossa tragédia cotidiana: somos torcedores fanáticos do nada.

A cena é conhecida. Um grupo de torcedores invade o centro de treinamento, exige explicações, ameaça jogadores, cobra resultados. Quer ver o time vencer, custe o que custar. É o amor distorcido, o fanatismo travestido de patriotismo esportivo. Mas imagine se essa energia fosse canalizada para cobrar quem realmente decide o destino do país. Se houvesse uma “Torcida Organizada da Educação”, acampada na porta do ministério, exigindo livros, professores, respeito. Ou uma “Torcida da Saúde”, pressionando por hospitais decentes, remédios acessíveis, atendimento digno. Seria bonito, e assustador, ver o povo exigindo o básico com a mesma força com que exige um pênalti.

Mas não. A indignação nacional tem hora marcada: domingo, quatro da tarde. Fora disso, o brasileiro é pacífico, quase zen. Aceita filas, aceita impostos, aceita promessas vazias. E ainda ri. O mesmo sujeito que ameaça um jogador por perder um gol é capaz de votar em um político que rouba milhões e dizer “pelo menos ele faz alguma coisa”. É o moralismo seletivo, a ética de arquibancada: grita quando o juiz erra, mas fecha os olhos quando o ladrão acerta o bolso.

Há algo de profundamente psicológico nesse comportamento. O estádio é catarse, é válvula de escape. Ali o cidadão se sente poderoso, parte de algo maior. Pode xingar, pode exigir, pode se sentir dono do destino do time. Já na política, ele é só mais um. E ninguém gosta de ser só mais um. Então prefere o campo, onde o grito ecoa, onde o uniforme dá identidade, onde o inimigo é claro e o resultado é imediato. A vida real não tem placar, e isso incomoda.

O problema é que essa paixão desmedida pelo futebol virou anestesia social. Enquanto o país desaba, o povo discute escalação. Enquanto hospitais fecham, o debate é sobre o novo técnico. Enquanto escolas caem aos pedaços, o assunto é o reforço do meio-campo. E os políticos, espertos, sabem disso. Alimentam o espetáculo, posam com camisas, fingem torcer, fingem ser “do povo”. Porque sabem que o povo prefere o jogo à realidade.

Não se trata de acabar com o futebol, seria impossível. Trata-se de entender que o mesmo fervor que lota estádios poderia lotar praças, exigir mudanças, cobrar decência. Que o mesmo grito de “vamos ganhar” poderia ser “vamos melhorar”. Que o mesmo orgulho de ser torcedor poderia ser orgulho de ser cidadão. Mas isso exige coragem. E coragem, ao contrário de paixão, não se compra na bilheteria.

Talvez o brasileiro precise reaprender a torcer. Não por um time, mas por um país. Não por um gol, mas por um futuro. E talvez precise entender que o verdadeiro campeonato não é o Brasileirão, é o da dignidade. Que o verdadeiro técnico não é o treinador do clube, mas o governante que decide se o povo vai ter saúde, educação e segurança. E que, se ele não estiver jogando direito, merece vaias, não aplausos.

Enquanto isso não acontece, seguimos assim: torcedores de arquibancada, espectadores da própria ruína. Vibrando por gols e calados diante de tragédias. O país perde de goleada, e a torcida aplaude o espetáculo.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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