(07/09/26)
O céu azul daquela manhã parecia ter acordado com uma coceira. Não era uma coceira de verdade, daquelas que fazem as nuvens se mexerem sem parar, mas uma sensação esquisita, como se algo estivesse fora do lugar. Pilu percebeu isso logo que abriu seus contornos macios para o dia. Lira também percebeu, porque veio deslizando até ela com um ar preocupado.
— Pilu… você sentiu?
Perguntou Lira, olhando ao redor como quem procura um barulho que não existe.
— Senti.
Respondeu Pilu.
— O céu está diferente hoje.
Lira se aproximou mais, quase se enroscando na amiga.
— Será que tem a ver com o que Nimbo disse ontem?
Pilu não respondeu de imediato. Ela queria observar o céu antes de dizer qualquer coisa. O azul estava bonito, mas havia uma sombra que não vinha do sol. Era uma sombra de pensamento, daquelas que aparecem quando alguém espalha dúvidas no ar.
— Talvez.
Disse Pilu.
— Vamos ver como ele está hoje.
As duas seguiram flutuando até encontrarem Nimbo. Ele estava menor do que o normal, o que era estranho, porque Nimbo adorava parecer grande. Mas, ao perceber que Pilu e Lira se aproximavam, ele rapidamente se inflou, como se estivesse tentando recuperar o tamanho perdido.
— Ah, vocês chegaram.
Disse ele, com um tom que tentava soar importante, mas tinha um fiapo de nervosismo.
— Precisamos conversar.
Lira se encolheu um pouco, mas Pilu manteve o ritmo calmo.
— Sobre o quê?
Perguntou Pilu.
Nimbo olhou para os lados, como se estivesse prestes a revelar um segredo que o céu inteiro deveria temer.
— Descobri mais coisas.
Disse ele.
— Coisas sérias. Muito sérias.
Lira deu um pequeno giro, inquieta.
— Sérias como o quê?
Nimbo suspirou, inflando-se mais um pouco.
— Sérias como… como nuvens que fingem ser minhas amigas, mas duvidam de mim pelas costas.
Pilu sentiu o ar ficar mais pesado. Não porque Nimbo tivesse dito algo verdadeiro, mas porque ele falava de um jeito que deixava tudo confuso. Era como se ele estivesse plantando sementinhas de desconfiança no céu.
— Nimbo.
Disse Pilu, com cuidado — você tem certeza disso?
Ele ergueu suas bordas, ofendido.
— Absoluta. Eu sinto. E quando eu sinto, é verdade.
Lira olhou para Pilu, aflita.
— Mas… quem faria isso?
Perguntou ela, com a voz quase tremendo.
Nimbo deu um sorriso que não era exatamente um sorriso.
— Não vou dizer. Não quero causar problemas. Só quero que vocês saibam que estou atento.
Pilu percebeu que Lira estava ficando cada vez mais insegura. A nuvem fininha começou a se mover de um lado para o outro, como se tentasse fugir de um pensamento que não queria ter.
— Pilu… será que ele está falando de mim?
Perguntou Lira, baixinho. — Eu fiz perguntas… e se ele achou ruim?
Pilu se aproximou dela, envolvendo-a com uma sombra suave e acolhedora.
— Lira, já te expliquei, perguntar nunca é errado. E ninguém deveria fazer você se sentir culpada por querer entender as coisas.
Nimbo fingiu não ouvir, mas sua borda tremeu um pouco.
— Bom.
Disse ele, com um ar de quem encerra um assunto.
Vou continuar minhas observações. O céu precisa de alguém responsável.
E saiu flutuando, espalhando-se como um tapete preguiçoso que tenta parecer majestoso.
Lira ficou olhando para ele até que desapareceu atrás de um pedaço de sol.
— Pilu… por que ele fala essas coisas?
Perguntou ela.
— Parece que ele quer que a gente fique triste.
Pilu pensou por um momento. Ela não queria dar respostas prontas, mas queria ajudar Lira a enxergar melhor.
— Às vezes.
Disse Pilu.
— Alguém fala coisas que deixam os outros inseguros porque isso faz essa pessoa se sentir mais forte. É como se, ao diminuir a confiança dos outros, ela aumentasse a própria.
Lira ficou em silêncio, absorvendo a ideia.
— Mas… isso não é justo.
Disse ela, finalmente.
— Não é mesmo.
Concordou Pilu.
— E é por isso que precisamos prestar atenção. Quando alguém fala de um jeito que deixa o céu pesado, mesmo sem motivo, é bom saber quem somos.
Lira respirou fundo, como se estivesse guardando aquela ideia dentro de si.
— Então… se ele diz que alguém está contra ele, mas não mostra nada… a gente não precisa acreditar só porque ele fala com firmeza?
Pilu sorriu.
— Exatamente. Firmeza não é prova. Às vezes, é só barulho.
Lira abriu um sorriso leve, como um fio de luz.
— Acho que estou entendendo melhor agora.
As duas seguiram flutuando juntas, enquanto o céu azul parecia ouvir a conversa com interesse. Era como se o próprio céu estivesse aprendendo também.
Mas, enquanto flutuavam, Pilu percebeu algo novo: uma pequena nuvem lá longe, que parecia ter ouvido as palavras de Nimbo e agora se afastava das outras, desconfiada. Era como se a sombra que não vinha do sol estivesse começando a se espalhar.
Pilu sentiu um aperto suave dentro de si. Ela sabia que precisaria fazer algo. Não para brigar com Nimbo, mas para impedir que o céu se enchesse de dúvidas que não pertenciam a ele.
E, naquele momento, Pilu decidiu que o próximo passo seria ajudar as outras nuvens a enxergar com clareza. Porque o céu era grande demais para ser tomado por sombras inventadas.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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