(13/01/26)
Acordei hoje com a sensação de que o país inteiro entrou numa romaria moderna, dessas em que o santo não é mais de barro, mas de silicone, e o milagre esperado é perder três quilos em duas horas. Está todo mundo correndo atrás dessa tal beleza exterior como se fosse a última boia no naufrágio coletivo. E o mais curioso é que ninguém admite o desespero. Todo mundo finge que é só “autocuidado”, “bem-estar”, “autoestima”. Mas basta olhar em volta: a fila da farmácia parece fila de confessionário, cada um segurando sua caneta milagrosa como quem segura a salvação.
Outro dia vi uma moça aplicando uma dessas canetas no estacionamento do mercado, entre o carrinho e o porta-malas. Parecia um ritual secreto, quase proibido. Ela olhava pros lados, como quem teme ser pega cometendo um pecado moderno: o pecado de não ser perfeita o suficiente. E eu ali, observando, pensando que talvez a gente tenha trocado a velha culpa por uma versão mais sofisticada, com embalagem colorida e promessa de resultados em sete dias.
O mais engraçado é que ninguém assume que sofre. Todo mundo jura que faz por prazer. Como se fosse prazeroso viver contando calorias, medindo cintura, comparando fotos, caçando defeitos no espelho como quem caça mosquito no verão. A gente se tornou especialista em encontrar problema onde antes só havia pele. E, claro, sempre tem alguém pronto pra vender a solução. Procedimento novo? Tem. Soro da juventude? Tem. Agulha que promete felicidade? Tem também. É só pagar. E sorrir. Mesmo que o sorriso esteja meio torto de tanto botox.
No fundo, o que mais me intriga é essa mania de acreditar que o corpo é um projeto infinito, sempre inacabado, sempre insuficiente. Como se a vida fosse uma eterna reforma de apartamento. Troca o piso, muda a parede, derruba um pedaço, levanta outro. E nunca termina. Porque terminar seria admitir que não há mais o que consertar. E isso, pra muita gente, é insuportável.
A sociedade inteira virou uma plateia silenciosa, assistindo a esse espetáculo diário de correções, ajustes, intervenções. E, claro, julgando. Porque o julgamento é o tempero preferido. Se a pessoa faz demais, é exagerada. Se faz de menos, é relaxada. Se não faz nada, é corajosa ou irresponsável, dependendo do humor do comentarista. No fim, ninguém escapa. Nem quem tenta se encaixar, nem quem tenta fugir.
E eu fico pensando no que sobra dessa história toda. Talvez uma sensação de vazio, dessas que a gente tenta preencher com mais um procedimento, mais um creme, mais uma promessa. Talvez uma vontade secreta de ser visto de verdade, sem filtro, sem retoque, sem performance. Mas isso dá medo. Medo de não ser suficiente. Medo de ser comum. Medo de ser só humano.
O mais irônico é que, enquanto todo mundo corre atrás da beleza perfeita, a vida continua acontecendo do jeito mais imperfeito possível. O trânsito trava, o boleto vence, o cabelo acorda rebelde, o amor dá errado, o tempo passa. E passa rápido. Muito mais rápido do que qualquer tratamento consegue acompanhar.
No fim das contas, talvez a grande tragédia seja essa: estamos gastando energia demais tentando polir a superfície, enquanto o que realmente precisa de cuidado continua ali, escondido, esperando ser visto. Mas isso dá trabalho. E trabalho não cabe em cápsula, nem em seringa, nem em caneta.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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