Sabeis

Crônicas

O salto olímpico da submissão corporativa

(24/03/26)

Tem gente que transforma a simples aparição do chefe num espetáculo digno de plateia, e é sobre isso que eu quero falar: o show diário do puxa-saquismo corporativo. Aquele teatro involuntário, ou muito voluntário, que acontece nos corredores das empresas, onde alguns colegas parecem disputar medalha de ouro na modalidade “perdi a dignidade, mas ganhei visibilidade”. Você já viu. Eu já vi. Todo mundo já viu. E, claro, finge que não viu, porque ninguém quer ser o chato que aponta o óbvio. Mas o fato é que esse comportamento afeta todo mundo, até quem tenta sobreviver quieto, só fazendo o próprio trabalho sem precisar dar pirueta para agradar ninguém.

O problema é que, no ambiente corporativo, o puxa-saco não é só um personagem engraçado. Ele é um fenômeno social. Uma espécie de criatura adaptada ao ecossistema da empresa moderna. Enquanto você está ali, tentando entregar um relatório decente, ele está treinando o sorriso perfeito para quando o chefe passar. E quando passa, pronto: o sujeito quase levita. Dá pulinhos. Literalmente. Como se tivesse visto uma celebridade. E você fica pensando: será que eu estou no escritório ou num programa de auditório?

O mais curioso é que esse comportamento não nasce do nada. Ele brota de uma lógica silenciosa que todo mundo conhece, mas ninguém admite: a de que, muitas vezes, quem sobe não é quem trabalha melhor, mas quem sabe performar melhor. E performar, nesse caso, significa transformar o chefe no sol e girar em torno dele como um planeta desesperado por luz. É trágico. É cômico. É patético. E, de alguma forma, é aceito.

A gente olha para essas cenas e ri, claro. Porque é engraçado ver um adulto, com diploma e tudo, se comportando como se estivesse pedindo aprovação para entrar no recreio. Mas, ao mesmo tempo, dá uma pontada de desespero. Porque, no fundo, sabemos que esse tipo de comportamento funciona. Funciona demais. E isso diz muito mais sobre as empresas do que sobre os indivíduos. É quase um pacto silencioso: você finge que admira, eu finjo que acredito, e seguimos todos fingindo que isso é normal.

E aí vem a hipocrisia coletiva. Todo mundo critica o puxa-saco, mas ninguém critica o sistema que o recompensa. É aquela indignação seletiva: “Nossa, que vergonha alheia!”, diz o colega que, no dia seguinte, aparece com um elogio exagerado pronto para soltar na reunião. Porque ninguém quer ser o ridículo… mas também ninguém quer ficar para trás. A moralidade corporativa é flexível, moldável, elástica. E, quando a oportunidade aparece, ela estica até onde for preciso.

O mais triste, e engraçado, porque a vida corporativa é uma comédia trágica, é que o puxa-saco acredita mesmo que está arrasando. Ele acha que está sendo estratégico, visionário, quase um gênio das relações humanas. Enquanto isso, o resto da equipe observa como quem assiste a um documentário sobre comportamento animal: curioso, perplexo, meio assustado. E, claro, torcendo para não virar a próxima espécie ameaçada de extinção.

Mas a verdade é que esse tipo de personagem só existe porque o ambiente permite. Aliás, mais do que permite: incentiva. Empresas adoram dizer que valorizam autenticidade, mas, na prática, premiam quem sabe jogar o jogo. E o jogo, muitas vezes, é feio. É feito de bajulação, de exagero, de pequenas humilhações disfarçadas de “boa convivência”. E quem não joga fica parecendo o estranho da festa, aquele que não entendeu a música.

No fim das contas, o puxa-saco é só o sintoma. O problema é a doença. Uma doença que transforma adultos em acrobatas emocionais, sempre prontos para saltar, sorrir, concordar, aplaudir. E, claro, subir. Porque, no fim, é isso que eles querem: subir. Mesmo que seja pisando na própria dignidade como quem pisa num tapete velho.

E nós? Ficamos ali, assistindo. Rindo por fora, incomodados por dentro. Fingindo que não nos afeta, quando afeta. Porque, quando a promoção chega para quem pulou mais alto, a gente percebe que, talvez, a lógica do esforço não seja tão lógica assim. E aí vem aquela dúvida amarga: será que eu deveria ter dado uns pulinhos também?

Mas não. A gente respira fundo, ajeita a postura e segue. Porque, apesar de tudo, ainda existe um certo orgulho teimoso que impede a gente de entrar nesse circo. Talvez seja burrice. Talvez seja dignidade. Talvez seja só preguiça de pular.

De qualquer forma, seguimos. Observando. Rindo. Sofrendo. E torcendo para que, um dia, as empresas percebam que competência não faz barulho, e muito menos salta.

Cláudio Sampaio (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

XXXXXXXXX

Redação Sabeis – X