(06/01/26)
A gente acorda achando que o maior problema do dia vai ser o café frio, mas basta abrir a janela para lembrar que o assunto que realmente nos engole é a segurança pública largada às traças, como se fosse um cachorro velho esquecido no quintal. Está tudo aí, escancarado: crimes crescendo, gente com medo de sair de casa, governantes fingindo que não viram nada. E nós, claro, tentando seguir a vida como se fosse possível ignorar o barulho de uma rua que grita por socorro.
Outro dia, vi uma senhora atravessando a calçada com a bolsa agarrada ao peito como quem segura um segredo sujo. Não era só medo de assalto. Era medo de ser a próxima estatística, medo de virar assunto de mesa de bar, medo de ser lembrada apenas como “aquela que levaram tudo”. E o mais curioso é que ela nem parecia perceber que carregava também uma culpa silenciosa, como se fosse responsável por não ter escolhido um país mais seguro para viver. A gente aprende cedo a se culpar até pelo que não controla.
Enquanto isso, os governantes seguem naquele teatro ensaiado, repetindo frases prontas, como se a vida real fosse um discurso interminável. Prometem, sorriem, posam para fotos. E a gente, besta, assiste. É quase um espetáculo de mágica: eles tiram do bolso palavras bonitas e fazem desaparecer qualquer ação concreta. No fim, sobra só o truque barato, aquele que todo mundo já conhece, mas continua aplaudindo por hábito.
Outro dia, conversando com um amigo, ele me disse que já nem reage mais quando escuta sobre um roubo no bairro. “Normal”, ele falou, com a naturalidade de quem comenta o tempo. E eu fiquei pensando no peso dessa palavra. Normal. Como se fosse normal viver trancado, normal olhar para os lados antes de abrir o portão, normal desconfiar de qualquer moto que passa devagar. A gente se acostuma ao absurdo com uma facilidade assustadora. Talvez seja esse o nosso maior defeito: aceitar demais.
E tem também aquele moralismo torto que aparece nas conversas. Sempre tem alguém dizendo que “bandido bom é bandido morto”, mas na mesma frase reclama que a polícia não chega a tempo. É uma mistura estranha de indignação e curiosidade mórbida. As pessoas querem justiça, mas também querem a fofoca completa, querem saber quem foi, como foi, por que foi. É como se o crime tivesse virado parte da rotina, um tempero amargo que ninguém gosta, mas todo mundo comenta.
No fundo, o que mais dói é perceber que a rua perdeu a inocência. Antes, criança brincava na calçada, vizinho conversava no portão, gente ria alto sem medo. Hoje, cada esquina parece carregar uma ameaça invisível. E o pior é que essa sensação não nasceu do nada. Ela cresceu alimentada pela indiferença de quem deveria cuidar da gente. Cresceu porque quem manda prefere discutir números em vez de pessoas, prefere estatísticas em vez de histórias.
E nós seguimos aqui, tentando manter alguma esperança, como quem segura um guarda-chuva furado na tempestade. Fingimos que está tudo bem, que vai melhorar, que alguém vai fazer alguma coisa. Mas no fundo sabemos que, se nada mudar, a rua vai continuar pedindo socorro. E talvez, um dia, ela canse de pedir.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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