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Sabeis

Crônicas

Perdemos o Manual de Instruções da Democracia

(04/08/26)

Dizem que vivemos em uma democracia. A palavra, tão bonita na teoria, vem daquele grego clássico que adoramos citar para parecer cultos: demos (povo) + kratos (poder). Poder do povo. Simples, direto, quase poético. Mas, como tudo que envolve seres humanos, a prática costuma ser menos lírica.

Às vezes me pergunto se o que chamamos de democracia não é apenas um ritual cívico performático, uma espécie de teatro obrigatório a cada dois anos, no qual apertamos alguns botões e fingimos que estamos decidindo o destino da nação. Uma catarse coletiva, dessas que aliviam a consciência, mas não mudam a realidade.

Porque, sejamos honestos: se democracia fosse apenas votar, reality show também seria regime político.

O problema é que confundimos o ato com o conceito. Votar virou sinônimo de poder, quando na verdade é só o primeiro passo, e, ironicamente, o mais frágil. O poder real não está no botão apertado, mas no entendimento do que aquele botão significa.

E aí começa a tragédia.

O povo, esse protagonista teórico da democracia, raramente compreende o roteiro. Não por incapacidade, mas por falta de instrução, e, principalmente, por falta de interesse dos que deveriam instruir. Afinal, ignorância coletiva é o melhor seguro de vida dos maus políticos.

É como entregar a chave de casa para alguém que não sabe a diferença entre porta e janela. Ele até pode entrar, mas não vai entender o que está fazendo ali.

Outro dia, me peguei imaginando a democracia como uma casa com um casal e três crianças. Todos votam no cardápio do jantar. Adivinha o resultado? Fast-food todo dia. Não porque as crianças sejam tiranas, mas porque são… crianças. Elas votam pelo prazer imediato, não pela saúde a longo prazo.

E aí alguém aparece, indignado, dizendo que estou defendendo tirar o voto dos menos instruídos. Não, pelo contrário. O que eu queria mesmo é que a instrução fosse o requisito básico para votar. Não instrução acadêmica, mas instrução cívica.

Porque, convenhamos, não faz sentido exigir mais preparo para dirigir um carro do que para escolher quem dirige um país.

Pense no motorista. Antes de receber a carteira de habilitação, ele passa por provas e exames. Aprende regras, sinais, limites. Tudo para reduzir o risco de causar um acidente.

Agora pense no eleitor. Ele recebe o título sem precisar demonstrar qualquer conhecimento sobre o sistema político. Não precisa saber o que faz um deputado, para que serve o Senado, qual é a função de um vereador ou o que exatamente o Executivo executa.

E aí, sem entender o básico, ele escolhe quem vai legislar, fiscalizar, administrar, decidir, gastar, vetar, sancionar.

É como entregar um avião para alguém que nunca viu um painel de controle e torcer para que ele aprenda no ar.

Mas o ponto central não é a crítica ao eleitor. É a crítica ao sistema que se beneficia da ignorância dele. Porque, se o povo realmente entendesse o poder que tem, mais da metade dos políticos perderia o emprego no dia seguinte.

E eles sabem disso.

Por isso, investem pesado em manter a população entretida, distraída, dividida. Transformam política em torcida organizada, debate em briga de bar, opinião em arma. Criam inimigos imaginários, salvadores improváveis, narrativas emocionais que dispensam raciocínio.

E o povo, cansado, sobrecarregado, sem tempo para estudar o funcionamento do Estado, acaba aceitando a versão mais simples: votar é exercer poder.

Quando, na verdade, votar sem consciência é só terceirizar o próprio destino.

A democracia, do jeito que está, virou uma espécie de contrato assinado sem ler. A gente concorda com os termos porque todo mundo concorda, porque sempre foi assim, porque não dá para viver sem. Mas ninguém sabe exatamente o que está aceitando.

E, como em qualquer contrato mal lido, quem lucra é sempre o outro lado.

Às vezes imagino como seria se o título eleitoral exigisse um exame básico de compreensão cívica. Nada complexo, não estou falando de filosofia política ou teoria do Estado. Só o mínimo: saber o que faz um senador, para que serve a Câmara, qual é a diferença entre município, estado e União.

Seria pedir demais?

Talvez. Mas pedir menos do que isso é aceitar que o país seja conduzido por escolhas feitas no escuro.

E, convenhamos, já tropeçamos demais nessa escuridão.

Mas há um detalhe que não podemos ignorar: conhecimento não é garantia de virtude. Há pessoas altamente instruídas que usam sua inteligência para manipular, distorcer, enganar. E há pessoas simples, com pouca escolaridade formal, que têm uma sabedoria moral que não se aprende em livros.

Então, não se trata de elitizar o voto. Trata-se de democratizar o entendimento.

Porque democracia sem consciência é só um slogan bonito.

E slogans, como sabemos, são a especialidade dos que querem parecer democráticos sem realmente sê-lo.

O que me incomoda não é a democracia em si, mas a versão adulterada que vendem para nós. Uma democracia de fachada, onde o povo participa do processo, mas não do poder. Onde a escolha é livre, mas a compreensão é limitada. Onde a responsabilidade é coletiva, mas a culpa é sempre individual.

E, no fim, quando tudo dá errado, e sempre dá, dizem que a culpa é do povo que votou mal.

Mas como culpar alguém por errar quando nunca lhe ensinaram a acertar?

A verdade é que o poder só existe com consciência. Sem ela, vira ilusão. Vira fantasia. Vira teatro.

E nós, espectadores disciplinados, aplaudimos no final, acreditando que participamos da peça.

Mas, no fundo, sabemos que não escrevemos o roteiro.

Ainda.

Talvez um dia a democracia deixe de ser apenas o direito de votar e passe a ser o direito de entender. Talvez um dia o povo perceba que poder não é apertar um botão, mas compreender o que aquele botão representa. Talvez um dia a instrução cívica seja tão natural quanto aprender a tabuada.

E, quando esse dia chegar, talvez finalmente possamos dizer que vivemos em uma democracia de verdade.

Até lá, seguimos no improviso, torcendo para que, mesmo sem manual de instruções, o estrago não seja irreversível.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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