(12/05/26)
Logo de cara, dá para dizer sem rodeios: vivemos cercados por políticos que só pensa na própria reeleição. É como se cada um acordasse, escovasse os dentes e já começasse a calcular quantos votos aquela escovada rende. Antes da eleição, eles fingem que estão ouvindo o povo; depois que ganham, fingem que já não ouviram nada. E o mais curioso é que todos, de todos os lados, repetem o mesmo ritual, como se fosse um instinto automático. A vida pública virou um grande espelho onde eles só enxergam a si mesmos.
O problema é que essa obsessão cria um clima estranho, quase sufocante. A gente percebe que nada é feito porque precisa ser feito, mas porque rende like, discurso, corte para a rede social. É como se cada buraco tapado na rua fosse uma declaração de amor ao próprio futuro político. E nós, que só queríamos uma rua sem buracos, viramos figurantes dessa peça mal ensaiada. No fundo, sabemos que não somos prioridade. Somos só plateia, e plateia que não pode vaiar.
É curioso como eles falam em “projeto de país” com a mesma convicção de quem promete começar dieta na segunda-feira. A intenção até parece bonita, mas todo mundo sabe que não vai durar. O que dura mesmo é o medo de perder a boquinha. Esse medo move montanhas, muda discursos, apaga convicções. É impressionante como gente tão segura diante das câmeras treme por dentro só de imaginar ficar sem gabinete, sem assessores, sem carro oficial. O desespero deles é tão grande que, se pudessem, pediriam voto até para poste na rua.
E aí vem aquela culpa silenciosa que ninguém admite. Porque, no fundo, eles sabem que deveriam trabalhar para quem os elegeu. Sabem que prometeram mundos e fundos. Sabem que muita gente acreditou. Mas a culpa não dura muito. Logo aparece um assessor dizendo que a próxima eleição já está logo ali, que é preciso “estratégia”, que é melhor não mexer com certos interesses. E pronto: a consciência volta a dormir tranquila, como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, nós seguimos assistindo a esse espetáculo repetido. A cada ciclo eleitoral, a mesma coreografia: promessas, sorrisos, visitas repentinas a lugares que eles nunca pisaram antes. Depois, silêncio. E quando o silêncio começa a incomodar, eles reaparecem com um anúncio qualquer, só para lembrar que ainda existem. É quase engraçado, se não fosse trágico. A gente aprende a rir para não chorar.
O mais irônico é que muitos deles se dizem defensores da moral, da família, dos bons costumes. Falam como se fossem guardiões de tudo o que é correto. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que a moral deles tem prazo de validade: dura até o próximo corte. Depois disso, vira só mais um acessório de campanha, como o adesivo no carro ou o santinho distribuído na esquina.
E nós seguimos aqui, tentando entender como é que um país inteiro consegue funcionar com tanta gente preocupada apenas com o próprio futuro. Talvez funcione justamente porque o povo, cansado, já se acostumou. Já espera pouco. Já não se surpreende. E isso, no fim das contas, é o que mais alimenta essa engrenagem: a nossa resignação.
Mas ainda dá para cutucar essa ferida. Dá para lembrar que política não deveria ser carreira, mas serviço. Que mandato não é herança, é responsabilidade. Que ninguém deveria viver em campanha permanente enquanto o resto do país vive em espera permanente. Talvez, se repetirmos isso o suficiente, alguém escute. Ou, pelo menos, finja escutar com um pouco mais de vergonha.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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