(24/08/26)
Logo cedo, ouvi o vizinho gritar que “homem de verdade não leva desaforo para casa”. Era sobre isso que eu pensava enquanto fazia a barba: essa mania de alguns homens acharem que nasceram com um crachá de superioridade pendurado no pescoço. Eles falam alto, batem no peito, fazem pose de muralha… mas basta um sopro de contrariedade para desmoronarem como castelos de areia. É curioso como esses autoproclamados fortes vivem em guerra com qualquer mulher que ouse existir fora do roteiro deles. E o mais trágico é que eles realmente acreditam que essa postura é sinal de força, quando na verdade é só medo mal disfarçado.
A cena do vizinho não era novidade. Ele vive repetindo frases prontas, como se estivesse sempre ensaiando para um papel que nunca domina. A cada discussão, ele sobe o tom, como se volume fosse argumento. E eu fico ali, ouvindo pela parede, pensando em quantos homens passam a vida inteira tentando provar algo que ninguém pediu. É quase comovente, se não fosse tão destrutivo. Eles se agarram a uma fantasia de poder que só funciona quando alguém está por baixo, e adivinha quem costuma ser esse alguém?
No fundo, é tudo uma tentativa desesperada de esconder fragilidades que eles juram não ter. É como se tivessem aprendido desde pequenos que sentir é proibido, que duvidar é fraqueza, que pedir ajuda é humilhação. Aí crescem e viram adultos que confundem respeito com obediência, diálogo com ameaça, mulher com inimiga. E quando percebem que o mundo não gira em torno deles, entram em curto-circuito. A culpa, claro, nunca é deles. É sempre “delas”.
Outro dia, no mercado, vi um sujeito reclamar porque a caixa pediu para ele esperar na fila. Ele bufou, revirou os olhos, fez aquele teatro de indignação. “Eu trabalho o dia inteiro!”, ele disse, como se os outros estivessem ali de férias. A caixa, paciente, apenas repetiu que havia pessoas antes dele. Ele saiu resmungando, derrotado por uma mulher que só estava fazendo o próprio trabalho. A tragédia cotidiana de quem não suporta ser contrariado por alguém que não se curva.
Esses homens vivem como se estivessem sempre prestes a serem desmascarados. E talvez estejam mesmo. Porque, quando a máscara cai, o que aparece não é força, mas insegurança. Não é coragem, mas medo. Não é liderança, mas dependência de um papel que não faz sentido há muito tempo. Eles se dizem protetores, mas quem precisa ser protegido deles são justamente as mulheres que eles juram amar.
E é curioso como muitos deles se reúnem em grupos, conversas, rodinhas, sempre reforçando uns aos outros que estão certos. É quase uma irmandade da fragilidade. Eles repetem frases feitas, compartilham teorias absurdas, alimentam uns aos outros com a ilusão de que são vítimas de um mundo que não reconhece sua grandeza. E enquanto isso, continuam incapazes de olhar para dentro e admitir que o problema não está “nelas”, mas neles mesmos.
A ironia é que, no fundo, eles sabem. Sabem que não são tão fortes quanto dizem. Sabem que não têm controle sobre tudo. Sabem que a vida não obedece suas ordens. E essa consciência, mesmo que silenciosa, os atormenta. Por isso atacam, gritam, diminuem, ridicularizam. É a forma que encontram de tentar calar o próprio medo.
Mas o medo não cala. Ele só muda de lugar. E volta, sempre volta. Volta quando a mulher decide ir embora. Volta quando o filho pergunta por que ele grita tanto. Volta quando ninguém mais leva a sério suas bravatas. Volta quando ele percebe que a força que tanto exibe não convence nem a si mesmo.
Talvez um dia eles entendam que grandeza não se mede no volume da voz, mas na capacidade de ouvir. Que respeito não se impõe, se constrói. Que força não é dominar, é reconhecer limites. E que nenhum homem se torna maior diminuindo uma mulher.
Até lá, seguimos assistindo a essas pequenas tragédias diárias. Tragédias que, no fundo, não são sobre poder, mas sobre medo. E sobre homens que, tentando provar que são gigantes, acabam tropeçando no próprio tamanho.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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