(17/08/26)
Quando penso na educação brasileira, não consigo evitar a imagem de um bando de lobos cuidando de uma floresta de cervos. Lobos muito bem alimentados, diga-se de passagem. Cervos, nem tanto.
A pergunta que não quer calar, embora devesse gritar, é simples: por que nossa educação é tão fraca desde a base?
A resposta, infelizmente, não exige nenhum tratado filosófico. Basta observar o comportamento dos lobos.
Porque, convenhamos, não é do interesse deles que os cervos aprendam a voar.
Outro dia, vi uma pesquisa mostrando que boa parte dos jovens brasileiros não consegue interpretar um texto simples. Não estou falando de poesia concreta ou filosofia alemã. Estou falando de um bilhete, uma instrução, um parágrafo de jornal.
E, enquanto isso, nossos governantes seguem produzindo leis escritas em juridiquês hermético, cheias de vírgulas suspeitas e parágrafos que parecem labirintos. É quase uma coreografia: eles escrevem absurdos, o povo não entende, e tudo segue como sempre.
Se o povo compreendesse o que está sendo feito em seu nome, talvez a história fosse outra. Talvez as ruas estivessem mais cheias, as urnas mais criteriosas, os discursos mais curtos.
Mas não. A ignorância massiva é a grande salvaguarda dos lobos engravatados.
Pense comigo: se a população tivesse letramento suficiente para entender o que está escrito nas leis, perceberia rapidamente que muitas delas são, no mínimo, acrobacias morais. E, se tivesse letramento matemático, então… ah, aí seria o caos para os corruptos.
Porque boa parte das peripécias com dinheiro público só funciona porque o povo não sabe fazer conta. Não sabe calcular porcentagem, juros, desvios, superfaturamentos. Não sabe comparar orçamento previsto com orçamento executado.
E, quando não se sabe fazer conta, qualquer número parece grande. Ou pequeno. Ou irrelevante.
E é exatamente isso que os lobos querem.
Lembro de uma conversa que tive com um professor de matemática. Ele dizia que ensinar porcentagem era como ensinar alguém a enxergar no escuro. De repente, tudo que antes parecia nebuloso se torna claro. Você começa a perceber padrões, exageros, manipulações.
E é justamente por isso que a matemática é tão negligenciada. Não porque seja difícil, mas porque é perigosa.
Perigosa para quem lucra com a confusão alheia.
A educação brasileira, no fundo, funciona como uma cerca elétrica invisível. Ela não impede que você ande, só impede que você vá longe demais. Você aprende o suficiente para trabalhar, consumir, obedecer. Mas não o suficiente para questionar, interpretar, exigir.
Outro dia, vi um político dizendo que “o povo não está preparado para certas discussões”. Achei curioso. Porque, se o povo não está preparado, quem deveria prepará-lo? Os mesmos que se beneficiam da falta de preparo?
A verdade é que a ignorância não é um acidente. É um projeto. Um projeto antigo, bem estruturado, cuidadosamente mantido.
E não é um projeto partidário. É um projeto de poder.
Porque, quando o povo sabe ler, mas não interpretar, ele vota pelo slogan. Quando sabe somar, mas não calcular, ele aceita o número que lhe entregam. Quando sabe escrever, mas não argumentar, ele repete o que ouviu.
E, quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, os lobos dormem tranquilos.
Mas há algo ainda mais perverso nessa história. A ignorância não apenas mantém o povo no chão, ela o convence de que o chão é o lugar natural.
É o cervo que acredita que não nasceu para voar. É o cidadão que acha normal não entender o que assina. É o eleitor que acha que política é coisa de gente “mais inteligente”.
E, quando a própria vítima acredita que merece o cercado, o trabalho dos lobos fica muito mais fácil.
Às vezes me pergunto como seria o Brasil se a educação fosse tratada como prioridade real, e não como slogan de campanha. Se as escolas ensinassem não apenas a ler, mas a compreender. Não apenas a somar, mas a analisar. Não apenas a repetir, mas a questionar.
Talvez tivéssemos menos lobos. Ou, pelo menos, lobos mais cuidadosos.
Porque, quando o povo aprende a voar, a vista muda. E, lá de cima, fica muito mais fácil enxergar quem está devorando quem.
Mas, por enquanto, seguimos assim: cervos com asas dobradas, acreditando que não nasceram para voar. E lobos satisfeitos, cuidando para que ninguém descubra o contrário.
Porque, no fim das contas, a pergunta que ecoa é simples: por que os lobos dariam asas aos cervos?
A resposta é ainda mais simples: porque cervos que voam deixam de ser cervos e se tornam um outro animal, águias talvez.
E isso, para os lobos, seria um grande problema.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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