Pular para o conteúdo principal

Sabeis

Crônicas

O lugar de fala de quem não tem lugar de fala

(16/06/26)

Há quem diga que o mundo ficou mais barulhento. Eu, particularmente, acho que ele ficou mais cheio de placas. Placas imaginárias, claro, daquelas que não estão pregadas em postes, mas na testa das pessoas. Placas que dizem quem pode falar, quem deve calar, quem tem autorização moral para se indignar e quem precisa aguardar sua vez na fila da dor.

E, como toda fila brasileira, essa também tem seus fiscais. Os fiscais do sofrimento. Os guardiões do “lugar de fala”.

Eu, por exemplo, descobri recentemente que não tenho lugar de fala. Não é que eu tenha perdido, nunca tive. Sou homem, branco, heterossexual, com boa escolaridade e segurança financeira. A vida, dizem, me deu um pacote de privilégios tão completo que, se eu ousar abrir a boca para falar de racismo, misoginia ou homofobia, cometerei uma espécie de invasão de território moral.

É curioso. Passei a vida acreditando que indignação era um sentimento humano, universal, desses que brotam quando vemos algo injusto. Mas, aparentemente, indignação agora tem dono, CEP e certidão de nascimento.

E, se você não pertence ao grupo certo, sua indignação vira apropriação. Sua empatia vira abuso. Seu desejo de contribuir vira opressão.

Outro dia, enquanto esperava meu café ficar pronto, me peguei pensando no absurdo disso tudo. A máquina fazia aquele barulho de vapor, e eu ali, parado, refletindo sobre como o mundo conseguiu transformar empatia em contrabando.

Porque é isso que o tal “lugar de fala” virou na mão de quem o usa como arma: um mecanismo de controle. Uma fronteira simbólica onde só entra quem tem o passaporte correto.

E, veja bem, não estou falando da ideia original, aquela que buscava dar voz a quem historicamente foi silenciado. Essa ideia é justa, necessária, urgente. O problema é o que fizeram com ela. O problema é quando a ferramenta vira trincheira. Quando a ponte vira muro. Quando a conversa vira disputa de legitimidade.

Transformaram o “lugar de fala” em “lugar de cala”.

E eu, que sempre achei que empatia era justamente a capacidade de se colocar no lugar do outro, descobri que, para alguns, isso é proibido. “Você não sabe como é”, dizem. “Você não viveu isso.”

É verdade. Eu não vivi. Mas desde quando a dor precisa ser vivida para ser compreendida? Desde quando a injustiça precisa ser experimentada para ser repudiada? Desde quando a humanidade virou um clube fechado?

Lembro de uma cena que me marcou. Estava no metrô, anos atrás, quando vi um homem negro ser abordado por dois seguranças. Ele não tinha feito nada, absolutamente nada. Só estava ali, parado, esperando a próxima composição. Mas os olhares desconfiados pousaram sobre ele como aves de rapina.

Eu senti indignação. Senti vergonha. Senti vontade de intervir.

Mas, se fosse hoje, talvez alguém me dissesse que essa indignação não me pertence. Que minha revolta contra o racismo não tem muito valor porque não tenho ancestralidade negra. Que meu incômodo é inválido e ilegítimo.

E isso me assusta. Porque se começarmos a deslegitimar a empatia, o que sobra? Se cada um só puder se indignar com a dor que viveu, estaremos condenados a um mundo de pequenas ilhas emocionais, cada uma cercada de muros altos e guardas na porta.

O mais irônico é que, ao tentar me calar, esses fiscais do sofrimento acabam me dando justamente o que dizem que eu não tenho: um lugar de fala.

Sim, porque quando alguém tenta me impedir de sentir empatia, está interferindo diretamente na minha experiência humana. Está me dizendo como devo reagir, o que posso ou não posso sentir. Está me impondo uma identidade emocional que não escolhi.

E isso, veja só, também é uma forma de opressão.

Não a opressão histórica, estrutural, profunda, essa que realmente destrói vidas e precisa ser combatida com todas as forças. Mas uma opressão simbólica, cotidiana, que tenta reduzir pessoas a categorias fixas, como se fôssemos personagens de um manual sociológico mal escrito.

A verdade é que ninguém deveria ser proibido de se indignar com o sofrimento alheio. A indignação é uma das poucas forças que ainda nos empurram para fora da bolha do egoísmo. É ela que faz alguém parar no meio da rua para ajudar um desconhecido. É ela que faz um adolescente defender um colega vítima de bullying. É ela que faz uma sociedade inteira se mobilizar diante de uma injustiça.

E, se começarmos a policiar quem pode sentir o quê, mataremos a empatia pela raiz.

Empatia não é sobre ter vivido a mesma dor. É sobre reconhecer a humanidade do outro. É sobre perceber que a dor dele, mesmo que diferente da sua, ainda é dor.

E dor, meu amigo, não precisa de tradução.

Mas talvez o ponto mais triste dessa história seja perceber que, por trás desse policiamento emocional, existe um medo profundo. Medo de perder espaço. Medo de que a dor de uns seja engolida pela voz de outros. Medo de que a história se repita, e os silenciados de ontem voltem a ser silenciados amanhã.

Esse medo é compreensível. É legítimo. É humano.

Mas não podemos deixar que ele nos transforme em guardiões de fronteiras imaginárias. Não podemos permitir que a luta por equidade vire uma disputa por monopólio moral.

Porque, no fim das contas, a verdadeira mudança não acontece quando cada grupo fala apenas para si. A mudança acontece quando as dores se encontram. Quando as indignações se somam. Quando a empatia circula livremente, sem passaporte, sem carimbo, sem autorização prévia.

Eu não quero roubar o lugar de fala de ninguém. Não quero ocupar espaço que não é meu. Não quero ser protagonista de uma história que não vivi.

Mas também não quero ser proibido de sentir.

Não quero que me digam que minha indignação é inválida. Não quero que me convençam de que minha empatia é uma forma de opressão. Não quero viver em um mundo onde a solidariedade precisa pedir permissão para existir.

Quero apenas poder olhar para o sofrimento alheio e dizer, com sinceridade: “Isso é errado. Isso me dói também. Isso precisa mudar.”

E, se isso não for permitido, então talvez o problema não esteja no meu lugar de fala. Talvez esteja no silêncio que tentam me impor.

No fim, percebo que meu verdadeiro lugar de fala é justamente esse: o lugar de fala de quem não tem lugar de fala. O lugar de quem observa o mundo construir muros emocionais e insiste em derrubá-los com palavras. O lugar de quem acredita que empatia não é privilégio, é responsabilidade.

E, se alguém quiser me tirar esse lugar, vai ter trabalho. Porque, ao contrário do que dizem, indignação não é propriedade privada. É patrimônio da humanidade.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

XXXXXXXXX

Redação Sabeis – X