(26/10/26)
Nas grandes empresas, o problema nunca é de quem está na sala. É sempre do andar de cima, do lado, do fundo, do prédio vizinho. O tema é simples e doloroso: em vez de buscar solução, todo mundo se especializa em empurrar a culpa para outro departamento. É quase uma competência técnica, dessas que aparecem em currículo: “excelente capacidade de apontar o dedo”. E você, que vive nesse ambiente, sabe bem como isso te afeta. Porque não importa onde você trabalhe, uma hora o problema bate na sua mesa, mesmo que tenha nascido a quilômetros de distância, e o jogo começa.
Funciona assim: deu ruim no resultado? É culpa de Vendas, que não vendeu. Vendas responde que não, que a culpa é da Engenharia, que projetou errado. Engenharia, ofendida, diz que o problema é da Produção, que não seguiu o procedimento. Produção, cansada, devolve para Qualidade, que não inspecionou direito. Qualidade, claro, lembra que quem aprovou tudo foi a Diretoria. A Diretoria, por sua vez, olha para o PowerPoint, faz cara de paisagem e conclui que “faltou alinhamento”. Pronto, ninguém resolveu nada, mas todos saíram com a sensação de terem sido muito estratégicos.
O mais curioso é que esse empurra-empurra não acontece só em reuniões grandes. Ele está no e-mail, no grupo de mensagens, na conversa de corredor. Você já viu: chega uma mensagem tensa, com aquele assunto em letras maiúsculas, e a primeira reação não é “como resolvemos?”, mas “quem eu posso colocar em cópia para dividir esse abacaxi?”. A pessoa não quer solução, quer companhia no desastre. Quer garantir que, quando alguém for procurar o culpado, tenha uma lista de nomes para escolher.
E aí entra a parte mais trágica: todo mundo sabe que isso é ridículo, mas continua fazendo. É uma espécie de pacto silencioso. Ninguém admite, mas todo mundo participa. Você se indigna quando vê o outro fugindo da responsabilidade, mas respira aliviado quando consegue escapar de uma bronca jogando o problema para outro setor. É o moralismo paradoxal em ação: condenamos a hipocrisia enquanto a praticamos com uma certa elegância.
No fundo, o ambiente corporativo virou um grande tabuleiro de “não fui eu”. As pessoas aprendem rápido que assumir erro é perigoso. Dá trabalho, gera exposição, pode virar rótulo. Então, em vez de encarar o problema, o jogo é deslocá-lo. Não se discute causa, não se discute processo, não se discute aprendizado. Discute-se apenas o endereço do problema: em qual departamento ele vai morar hoje.
Isso tem um custo enorme, e não é só financeiro. É emocional. Você sente o clima pesado, a desconfiança, a sensação de que qualquer passo em falso vira uma caça ao culpado. As reuniões deixam de ser espaços de construção e viram arenas de defesa. Cada um chega com seu escudo: relatórios, prints, e-mails antigos, tudo pronto para provar que “não foi comigo”. A empresa vira um lugar onde se trabalha mais para se proteger do que para criar algo útil.
Engraçado, porque essas mesmas empresas adoram falar de “espírito de equipe”, “colaboração”, “somos todos um só time”. O discurso é lindo, cheio de frases motivacionais na parede, vídeos institucionais com música inspiradora, campanhas internas sobre união. Mas basta um problema sério aparecer para que o tal “um só time” se divida em pequenos grupos armados, cada um defendendo seu território com unhas, dentes e planilhas.
E você, no meio disso, tenta sobreviver. Faz o que pode para não ser o próximo alvo. Aprende a responder e-mails com cuidado, a escolher bem as palavras, a guardar evidências. Vai ficando mais cínico, mais desconfiado, mais rápido em se defender. E, sem perceber, começa a participar do mesmo jogo que critica. Porque é difícil ser o único que levanta a mão e diz “sim, isso é responsabilidade minha” num ambiente que recompensa quem se esquiva.
O mais irônico é que, quando alguém finalmente assume um problema e tenta resolver, vira quase uma figura exótica. As pessoas olham com surpresa, como se fosse um ser de outro planeta. “Nossa, você está mesmo assumindo isso?” Sim, está. E deveria ser normal, não heroico. Mas a cultura do empurra-empurra transformou o óbvio em exceção.
Talvez o ponto mais incômodo seja perceber que essa lógica não nasce do nada. Ela é alimentada por lideranças que preferem encontrar culpados a enfrentar causas. É mais fácil apontar para um departamento do que admitir que o sistema inteiro está mal desenhado. É mais simples culpar uma área do que reconhecer que a empresa inteira funciona como uma máquina de produzir desculpas. E enquanto isso não muda, o jogo continua: cada problema vira uma espécie de pacote indesejado que precisa ser despachado para outro endereço.
Você pode até rir disso, porque a cena é realmente absurda. Mas é um riso meio amargo, aquele humor ácido que aparece quando a gente percebe que está preso num mecanismo que não faz sentido. A graça está na contradição: empresas que se dizem modernas, inovadoras, ágeis, mas que ainda resolvem conflitos como quem passa um embrulho de mão em mão, torcendo para que exploda longe.
No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: até quando vamos aceitar trabalhar em lugares onde o problema é sempre de outro? Até quando vamos achar normal que a energia gasta em culpar seja maior do que a energia gasta em resolver? Talvez a mudança comece quando alguém, em vez de procurar o próximo departamento na fila, olhar para o problema e dizer: “é nosso”. Não meu, não seu. Nosso. A partir daí, quem sabe, a empresa deixe de ser um campo de batalha de desculpas e vire, finalmente, um lugar onde se trabalha para construir, não para fugir.
Cláudio Sampaio (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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