(21/04/26)
Logo cedo, enquanto o país inteiro fingia que tudo estava sob controle, lá estava ele, o professor da sala 12, insistindo em ensinar seus alunos como se isso ainda fizesse diferença. E faz, claro que faz, mas só ele parece acreditar nisso com a teimosia de quem se recusa a abandonar um barco furado. O tema é esse mesmo: os poucos professores que ainda se esforçam de verdade. Aqueles que continuam lutando, mesmo quando o resto do mundo já jogou a toalha e finge que não viu. É sobre eles que eu falo, porque alguém precisa falar.
Ele entra na sala com a coragem de quem encara um tribunal. Os alunos o observam como quem avalia um produto na prateleira: serve ou não serve. E ele tenta servir. Tenta ser útil, tenta ser firme, tenta ser humano. No fundo, tenta não enlouquecer. Porque ensinar, hoje, virou quase um ato de resistência emocional. Uma batalha silenciosa entre o desejo de desistir e a culpa de abandonar quem ainda pode aprender alguma coisa.
E não pense que é exagero. O professor sabe que, se não fizer o que faz, ninguém fará. Sabe que muitos ali só terão contato com alguma forma de disciplina, curiosidade ou esperança dentro daquela sala apertada, quente, barulhenta. Ele sabe disso e carrega esse peso como quem carrega sacos de cimento nas costas. E ainda sorri. Ou tenta.
Enquanto isso, a sociedade inteira adora posar de preocupada com a educação. Todo mundo tem opinião, todo mundo tem solução mágica, todo mundo sabe exatamente o que deveria ser feito. Mas, na hora de valorizar quem realmente faz, aí o silêncio vira regra. É bonito cobrar, difícil reconhecer. E mais difícil ainda admitir que, sem esses poucos teimosos, tudo já teria desmoronado.
O professor da sala 12, por exemplo, não ganha medalha, não ganha bônus, não ganha aplauso. Ganha dor de cabeça, boletos e uma sensação constante de estar remando contra a maré. Mas continua. Porque, no fundo, tem uma obsessão quase ingênua: acreditar que ensinar ainda transforma alguma coisa. Talvez transforme pouco, talvez transforme devagar, mas transforma. E isso basta para ele.
E é curioso como, mesmo cansado, ele ainda se emociona quando um aluno entende algo simples. Quando alguém pergunta mais do que o necessário. Quando vê um brilho rápido no olhar de quem, por um segundo, percebe que aprender pode ser uma forma de liberdade. Esses momentos são raros, mas são o combustível que impede o professor de virar estatística.
A ironia é que, enquanto muitos reclamam da juventude perdida, da escola que não funciona, da bagunça generalizada, ninguém percebe que ainda existem heróis anônimos segurando as pontas. Heróis que não usam capa, mas usam caneta. Que não voam, mas correm de sala em sala. Que não salvam o mundo inteiro, mas salvam um aluno por vez. E isso, convenhamos, já é mais do que muita gente faz.
No fim do dia, o professor da sala 12 volta para casa exausto, mas com a estranha sensação de que cumpriu um dever que ninguém pediu, mas que ele insiste em assumir. Talvez seja teimosia. Talvez seja vocação. Talvez seja só a velha mania humana de tentar consertar o que está quebrado. Mas é bonito. E raro. E merece ser dito.
Porque, enquanto o país se distrai com escândalos, promessas e ilusões, ainda existem professores que se levantam todos os dias para ensinar o que sabem, do jeito que podem, para quem quiser ouvir. E isso, por si só, já é um ato de coragem.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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