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Sabeis

Crônicas

O Grande Circo do Protagonismo Corporativo

(10/08/26)

Todo mundo já percebeu que virou moda essa história de “protagonismo” no trabalho. É o novo mantra dos gurus de RH, repetido com a convicção de quem descobriu a cura da humanidade. Segundo eles, cada colaborador deve brilhar, liderar, aparecer, ser dono da própria carreira, da própria mesa e, se bobear, até da cafeteira. O detalhe é que ninguém comenta o óbvio: não existe palco suficiente para tanta estrela. Mas vá dizer isso em voz alta para ver se você não vira o vilão da novela corporativa. O discurso é bonito, claro. O problema é o efeito colateral: uma corrida maluca por destaque que transforma o ambiente de trabalho num ringue onde todo mundo sorri enquanto afia a faca por baixo da mesa.

E o mais curioso é que tudo isso vem embrulhado naquele tom motivacional que parece ter sido escrito por alguém que nunca precisou disputar uma vaga de promoção com o próprio colega de baia. Falam como se protagonismo fosse um presente, quando na verdade é uma cobrança disfarçada. “Seja protagonista!” soa muito como “se vire sozinho, mas sorrindo”. E lá vai o funcionário, achando que precisa provar diariamente que é indispensável, mesmo sabendo que, na prática, ninguém é. A empresa troca gente como quem troca senha do Wi-Fi.

O ambiente vai ficando estranho. Todo mundo começa a competir por qualquer migalha de visibilidade. A reunião vira palco. O e-mail vira performance. O relatório vira monólogo dramático. E o pobre coitado que só queria fazer seu trabalho em paz vira figurante involuntário de um espetáculo que nunca pediu para participar. A ironia é que, enquanto todos tentam ser protagonistas, ninguém percebe que a peça inteira está mal escrita.

E aí surge a hipocrisia coletiva, aquela que a gente finge que não vê porque precisa pagar boletos. Todo mundo diz que trabalha em equipe, mas ninguém quer ser o membro da equipe que não aparece na foto final. O discurso é de colaboração, mas a prática é de sobrevivência. É cada um tentando garantir seu lugar ao sol, mesmo que isso signifique empurrar discretamente o colega para a sombra. E tudo isso com aquele sorriso corporativo que já deveria ser considerado patrimônio cultural da falsidade humana.

O mais trágico, e engraçado, se você tiver estômago, é que o protagonismo virou uma espécie de religião moderna. Tem seus sacerdotes (os experts de RH), seus rituais (as reuniões motivacionais), seus mandamentos (“assuma o protagonismo da sua carreira”) e seus pecados mortais (não se destacar o suficiente). E, claro, seus fiéis desesperados, tentando alcançar a iluminação profissional enquanto competem por um elogio do chefe como se fosse medalha olímpica.

No fundo, todo mundo sabe que isso não funciona. Não dá para ter cinquenta protagonistas no mesmo departamento. Alguém precisa fazer o papel de coadjuvante, figurante, técnico de luz, alguém que segure o cenário para não cair. Mas admitir isso seria quebrar o encanto da fantasia corporativa. Então seguimos fingindo que é possível, que basta querer, que o mérito é uma linha reta e não um labirinto cheio de portas trancadas.

E o ambiente vai ficando pesado. A pressão para se destacar vira ansiedade. A ansiedade vira irritação. A irritação vira aquele clima silencioso e tóxico que todo mundo sente, mas ninguém comenta. Afinal, comentar seria admitir que o sistema está errado, e isso não pega bem na avaliação de desempenho. Então seguimos sorrindo, fazendo piada no café, compartilhando memes no grupo da firma, enquanto por dentro todo mundo está exausto de tentar ser protagonista de uma história que não tem roteiro.

O mais irônico é que, no fim das contas, o que realmente faz diferença numa empresa não é ter um batalhão de protagonistas, mas gente que trabalha junto sem precisar disputar quem aparece mais. Mas isso não dá palestra, não vende curso, não rende frase de efeito no LinkedIn. O protagonismo virou produto, e nós viramos consumidores ansiosos por aprovação.

Talvez a grande lição seja aceitar que nem todo mundo precisa ser protagonista. E tudo bem. O mundo real funciona com gente comum fazendo coisas comuns, e isso não é demérito. O problema é que admitir isso exige uma sinceridade que o ambiente corporativo não tolera. Então seguimos nesse teatro, rindo para não chorar, fingindo que estamos no controle enquanto tentamos sobreviver ao caos organizado das grandes empresas.

No fim, o protagonismo virou só mais um jeito elegante de dizer: “Se vire, mas faça parecer bonito”. E a gente faz. Porque precisa. Porque quer ser reconhecido. Porque, no fundo, ninguém quer ser o figurante que ninguém lembra. Mas talvez seja hora de perceber que esse espetáculo só funciona porque tem muito mais gente nos bastidores do que no palco. E que, sem eles, não haveria espetáculo nenhum.

Cláudio Sampaio (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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