(26/10/26)
Na manhã seguinte, Lúcia e Marcos chegaram cedo à praça.
Floshi saía de sua nave carregando uma mochila enorme.
— O que tem aí?
Perguntou Lúcia.
— Coisas importantes.
Respondeu Floshi.
Marcos apontou para o volume.
— Todas?
— Não. Algumas são completamente inúteis. Mas só descobrimos quais depois que precisamos delas.
Dentro da mochila havia uma lanterna, três biscoitos quadrados, uma bússola que apontava para lugares interessantes em vez do norte, um apito silencioso e uma colher azul.
Marcos pegou a colher.
— Para que serve?
Floshi deu de ombros.
— Ainda não descobri.
Começaram o passeio.
Girassol do Meio tinha ruas curtas, casas com quintais, uma escola amarela e uma biblioteca pequena. Na frente da padaria, algumas pessoas olharam para Floshi.
Não olharam como se olha para uma nuvem bonita.
Olharam comprido.
Daqueles olhares que parecem ter uma régua escondida.
Floshi percebeu.
— Tem alguma coisa nas minhas costas?
Perguntou ela.
Lúcia olhou.
— Não.
— Então por que todo mundo está olhando?
Marcos ficou sem jeito.
— É porque você é diferente.
— Outra vez essa palavra?
Perguntou Floshi.
— Ela é muito utilizada por aqui.
Marcos coçou a cabeça.
— Talvez até demais.
Continuaram andando.
Na esquina da escola, três crianças viram Floshi e atravessaram para o outro lado.
Lúcia ficou irritada.
— Elas nem conhecem você.
Floshi olhou para a calçada vazia.
— Talvez estejam com medo.
— Mas medo de quê?
Perguntou Marcos.
Floshi respondeu:
— Às vezes, as pessoas têm medo antes de descobrir do que deveriam ter medo.
Marcos pensou nisso.
— Isso não faz muito sentido.
— Medo nem sempre faz.
Responderam Lúcia e Floshi ao mesmo tempo.
As duas riram.
Na praça do mercado encontraram uma situação complicada.
Uma carroça de frutas havia perdido uma roda. Laranjas rolavam pela rua. Bananas estavam espalhadas pela calçada e um melão avançava lentamente em direção a uma descida.
— Peguem o melão!
Gritou Lúcia.
Os três correram.
Marcos conseguiu agarrá-lo antes que ele escapasse.
— Prendi o fugitivo!
Disse ele.
Floshi começou a recolher as laranjas.
Uma senhora aproximou-se, viu a menina verde e puxou sua sacola para perto do corpo.
Floshi percebeu.
Mas continuou ajudando.
Então ouviram um barulho na carroça.
A caixa maior se inclinou.
Marcos estava logo abaixo.
— Marcos!
Gritou Lúcia.
Floshi correu.
Sem tempo para procurar nenhuma invenção na mochila, empurrou Marcos para o lado. A caixa caiu onde ele estava.
As frutas se espalharam.
Marcos ficou sentado no chão, assustado.
— Você me salvou de virar panqueca.
Disse ele.
Floshi estendeu a mão.
— Panqueca de Marcos parece uma receita ruim.
A senhora que havia segurado a sacola ficou olhando.
Depois se abaixou e começou a recolher as laranjas.
— Posso ajudar?
Perguntou.
Floshi sorriu.
— Claro.
Logo outras pessoas fizeram o mesmo.
Não aconteceu uma transformação mágica em que todo mundo imediatamente passou a compreender tudo. Histórias podem ter magia, mas gente de verdade costuma aprender aos poucos.
Alguns ainda olhavam desconfiados.
Outros começaram a conversar.
Um menino perguntou se Floshi dormia de cabeça para baixo.
— Não.
Respondeu ela.
— E você?
— Também não.
— Então temos isso em comum.
Disse o menino.
Na biblioteca, Floshi descobriu os contos da cidade.
Encontrou princesas, gigantes, animais falantes e uma menina que carregava doces pela floresta.
— Essa menina de capuz vermelho não acha perigoso conversar com um lobo desconhecido?
Perguntou Floshi.
Lúcia respondeu:
— A história é justamente sobre isso.
Floshi pensou.
— Então, se o lobo estivesse usando um chapéu elegante, seria confiável?
— Não.
Disse Marcos.
— E se fosse feio e assustador, seria necessariamente mau?
— Também não.
Respondeu Lúcia.
Floshi fechou o livro.
— Histórias de vocês dão trabalho.
A bibliotecária, que tinha escutado a conversa, sorriu.
— As melhores dão.
Quando saíram, encontraram novamente a senhora da sacola.
Ela se aproximou de Floshi.
— Eu queria agradecer pelo que você fez.
Disse ela.
— E pedir desculpas.
Floshi inclinou a cabeça.
— Pelo quê?
— Quando vi você, fiquei desconfiada.
A senhora respirou fundo.
— Não por alguma coisa que você tivesse feito. Apenas pela sua aparência.
Floshi respondeu:
— No meu planeta também acontece.
Marcos arregalou os olhos.
— Acontece?
— Claro. Ser alienígena não deixa ninguém automaticamente inteligente.
Lúcia soltou uma gargalhada.
A senhora também riu.
Quando voltaram à praça, Floshi retirou da mochila a estranha bússola.
O ponteiro rodopiava.
De repente, parou na direção da escola.
— O que isso significa?
Perguntou Marcos.
— Minha bússola aponta para lugares onde existe alguma coisa interessante.
Respondeu Floshi.
— E o que existe na escola?
Perguntou Lúcia.
— Amanhã descobriremos.
Naquela noite, Floshi entrou em sua nave.
Lúcia e Marcos voltaram para casa.
A cidade permaneceu pequena.
As casas não mudaram de tamanho.
As ruas continuaram estreitas.
Mas alguns olhares estavam diferentes.
Tinham ficado um pouco menos compridos.
E um pouco mais largos por dentro.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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Redação Sabeis – X