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Sabeis

Baú de contos

Estela e o guardião das sombras perdidas

(17/08/26)

Estela, a estrelinha roxa que brilhava como quem carrega uma pergunta na ponta do brilho, estava observando um canto esquecido do universo. Era um lugar onde a luz parecia andar devagar, como se estivesse cansada de iluminar tanto. Lúnio girava ao seu redor, atento, e Póli tentava virar um guarda-sol, mas parecia mais um polvo desajeitado.

— Estela, por que estamos aqui?

Perguntou Lúnio, tentando não girar rápido demais.

— Porque senti um chamado.

Respondeu ela.

— Como se algo estivesse pedindo ajuda.

Póli virou um ponto de exclamação, depois um ponto de interrogação, depois um ponto de interrogação com pernas. Era seu jeito de dizer que estava curiosa.

Foi então que viram uma sombra correndo. Não uma sombra comum, daquelas que se escondem atrás de planetas. Era uma sombra que parecia perdida, tropeçando no próprio escuro. Estela se aproximou devagar, sem querer assustá-la.

— Você está bem?

Perguntou ela.

A sombra tremeu, como se estivesse tentando falar, mas não conseguia. Lúnio girou ao redor dela, iluminando um pouco o contorno. Póli virou uma lanterna torta, tentando ajudar.

— Acho que ela está fugindo de alguma coisa.

Disse Estela.

E estava.

Do fundo do espaço surgiu Nebulon, a nebulosa vilanesca que adorava transformar tudo em silêncio e escuridão. Ele avançava devagar, como quem sabe que o medo faz metade do trabalho.

— Devolvam minha sombra!

Disse ele, com aquela voz que parecia ecoar dentro da própria sombra.

— Ela me pertence!

A sombra se encolheu atrás de Estela, tremendo.

— Ela não parece querer voltar.

Disse Estela.

Nebulon se expandiu, irritado.

— Sombras não escolhem. Sombras obedecem.

Estela sentiu um calor dentro de si. Não era raiva. Era coragem.

— Todo ser tem direito de escolher.

Disse ela.

— Até uma sombra!

Nebulon riu, ou fez algo parecido com rir.

— Vocês acham que entendem o universo. Mas não entendem nada. A luz só existe porque eu permito. A sombra só existe porque eu comando.

Lúnio girou mais rápido, como quem se prepara para defender um amigo. Póli virou um escudo torto, mas cheio de boas intenções.

Estela se aproximou da sombra perdida.

— Você quer ficar com ele?

Perguntou ela.

A sombra balançou o corpo, como quem diz não.

— Então vamos te ajudar.

Disse Estela.

Nebulon avançou, espalhando escuridão. O espaço ficou pesado, como se estivesse segurando a respiração. Estela brilhou, mas a sombra de Nebulon era forte. Lúnio girou ao redor dela, criando um campo de luz. Póli virou uma lente gigante, ampliando o brilho.

Mas Nebulon era persistente.

— Vocês não podem protegê-la para sempre.

Disse ele.

— Ela é feita de mim.

Estela respirou fundo, mesmo sem precisar respirar.

— Talvez ela tenha sido feita de você. Mas agora ela quer ser dela mesma.

A sombra, ouvindo isso, começou a mudar. Primeiro devagar, depois mais rápido. Ela deixou de ser apenas sombra e começou a ganhar forma. Uma forma que parecia feita de escuridão e luz ao mesmo tempo. Uma forma que não pertencia a Nebulon.

Nebulon recuou, surpreso.

— Isso não é possível!

Estela sorriu.

— O universo adora o impossível.

A sombra, agora mais firme, se colocou ao lado de Estela. Não atrás. Ao lado. Como alguém que finalmente entende que pode existir por conta própria.

Nebulon tentou avançar de novo, mas a sombra levantou o braço, ou algo parecido com um braço, e criou uma barreira de escuridão suave, que não machucava, apenas impedia.

— Você não manda mais em mim!

Disse ela, com uma voz que parecia vento dentro de uma caverna.

Nebulon encolheu, irritado.

— Vocês são insuportáveis!

Estela piscou.

— A gente tenta.

Nebulon desapareceu, deixando apenas um rastro de sombra que logo se dissolveu.

A nova criatura, metade luz, metade escuridão, olhou para Estela.

— Obrigada.

Disse ela.

— Você não precisa agradecer.

Respondeu Estela.

— Só precisa ser quem quiser ser.

Lúnio girou feliz. Póli virou um confete de poeira. A criatura sorriu, ou fez algo parecido com sorrir.

— Acho que vou explorar o universo.

Disse ela.

— Agora que posso escolher.

Estela brilhou.

— O universo vai gostar de te conhecer.

E assim, a sombra que não era mais sombra partiu, deixando um rastro de escuridão luminosa que parecia uma nova constelação nascendo.

Estela observou, sentindo o universo respirar mais leve.

— Às vezes, a maior coragem é deixar alguém descobrir quem é.

Disse ela.

E o espaço, como sempre, pareceu concordar.

Keila Martins de Oliveira (PGIA)

Redação Sabeis – Baú de contos

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