(20/01/26)
O problema das pessoas pensarem só em si mesmas não começou ontem, mas hoje de manhã ele resolveu me dar bom-dia com a delicadeza de um tapa. Bastou eu sair de casa. A rua parecia um desfile de gente apressada, cada um carregando seu próprio universo como se fosse um segredo precioso demais para dividir. Ninguém olha, ninguém escuta, ninguém cede um centímetro. É como se o mundo tivesse encolhido até caber no bolso de cada um, e o resto que se vire. E eu ali, tentando atravessar a calçada, percebendo que a indiferença virou hábito, quase um esporte nacional.
A cena mais banal vira um pequeno drama quando você presta atenção. A moça do café, por exemplo. Pediu um expresso, recebeu, virou as costas sem agradecer. Não que o barista estivesse esperando uma serenata, mas um aceno não mata ninguém. Só que, para ela, o mundo era ela. O resto era cenário. E o barista, coitado, ficou ali com aquele sorriso congelado, como quem leva um fora sem ter se declarado. A gente acha graça, mas no fundo dói um pouco ver como a gentileza virou artigo de luxo.
E não pense que eu estou aqui posando de santo. Também tenho meus dias de ego inflado, quando acho que o universo deveria abrir espaço só porque acordei de mau humor. A diferença é que eu ainda sinto culpa. Uma culpa meio torta, meio inútil, mas que pelo menos me lembra que existe gente além de mim. Tem gente que nem isso. Gente que vive como se fosse protagonista de uma peça onde todos os outros são figurantes mal pagos.
Outro dia vi um sujeito furar a fila do mercado com a naturalidade de quem respira. Quando alguém reclamou, ele respondeu com aquele clássico “é rapidinho”. Como se a pressa dele fosse mais nobre que a dos outros. E o pior é que ninguém insistiu. Todo mundo engoliu seco, talvez porque já tenha se acostumado. A gente normalizou o absurdo. Virou rotina aceitar que cada um cuida do seu e dane-se o resto.
Mas aí vem o paradoxo: todo mundo reclama da falta de empatia, mas ninguém quer ser o primeiro a praticá-la. É como se a solidariedade tivesse virado um produto caro, vendido em prestações. A gente gosta da ideia, mas não quer pagar o preço. E olha que o preço é baixo: ouvir, ceder, dividir, reconhecer o outro. Coisas simples, quase bobas, mas que parecem pesar toneladas quando o ego está no comando.
O mais curioso é que, apesar de toda essa pose de independência, ninguém aguenta viver sozinho de verdade. A gente precisa do outro, nem que seja para ter alguém a quem culpar. Só que admitir isso dá trabalho. Então seguimos fingindo autossuficiência, como adolescentes que batem à porta do quarto para provar que não precisam de ninguém, mas esperam o jantar pronto na mesa.
No fundo, essa mania de pensar só em si mesmo é uma mistura de medo e vaidade. Medo de ser passado para trás, vaidade de achar que merece mais que o resto. E enquanto cada um protege seu pequeno território emocional, o mundo vai ficando mais apertado, mais áspero, mais silencioso. Não por falta de gente, mas por falta de encontro.
Talvez a solução não seja grandiosa. Talvez comece com um obrigado, um “pode passar”, um olhar que reconhece o outro como alguém que também sente, também cansa, também tenta. Pequenos gestos que, somados, podem devolver um pouco de espaço ao mundo. Porque, do jeito que está, ele anda pequeno demais para tanto ego.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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