(19/10/26)
Na pequena cidade de Girassol do Meio, quase tudo acontecia devagar.
O padeiro abria a padaria devagar. O sino da igreja tocava devagar. Até o cachorro do carteiro latia com certa preguiça, como se primeiro precisasse pensar se o assunto merecia mesmo um au-au.
Lúcia e Marcos, porém, não tinham nenhuma paciência com a lentidão da cidade.
Naquela tarde, os dois estavam na praça inventando uma competição de folhas secas. Cada um escolhia uma folha, colocava no alto do escorregador e soprava. Vencia a que chegasse primeiro ao chão.
Era uma competição bastante séria, principalmente porque ninguém sabia ao certo quais eram as regras.
Lúcia preparava a final quando uma coisa luminosa passou sobre a praça.
— Você viu?
Perguntou ela.
Marcos olhou para cima.
— Se você estiver falando daquela coisa brilhante, vi.
— E se eu estiver falando daquele pombo?
— Também vi. Mas acho que o pombo não soltou fumaça azul.
A coisa brilhante fez uma curva, sacudiu de um lado para o outro e desapareceu atrás de uma figueira.
Os dois correram.
No gramado havia uma pequena nave redonda, mais ou menos do tamanho de um carrinho de pipoca. Sua porta se abriu.
Lúcia parou.
Marcos também.
Então surgiu uma menina.
Era baixa, tinha pele verde, olhos muito grandes e cabelos escuros presos no alto da cabeça. Usava uma roupa prateada coberta de pequenos bolsos.
A menina olhou para Lúcia.
Depois para Marcos.
Depois para o escorregador.
— Que objeto esquisito.
Disse ela.
Marcos piscou.
— O escorregador?
— Não. Seu cadarço. Está desamarrado.
Marcos olhou para o tênis.
Estava mesmo.
A menina continuou:
— O escorregador também é esquisito.
Lúcia tentou não rir.
— Quem é você?
A menina apontou para si.
— Floshi.
Marcos, ainda desconfiado, perguntou:
— Você é alienígena?
Floshi pensou um pouco.
— Para vocês, sim. Para mim, os alienígenas são vocês.
Aquilo bagunçou a cabeça de Marcos de um jeito interessante.
Lúcia se aproximou mais.
— Por que você é verde?
Floshi olhou para os próprios braços.
— Porque esta é a cor da minha pele.
— Eu sei.
Disse Lúcia.
— Mas por que verde?
Floshi estreitou os olhos.
— Por que a sua não é?
Lúcia abriu a boca e tornou a fechá-la.
Nunca tinha pensado nisso.
Marcos achou melhor mudar de assunto.
— Sua nave caiu?
Floshi bateu na lateral do pequeno veículo. Uma portinhola se abriu e uma mola pulou para fora.
— Não gosto da palavra “caiu”.
Disse ela.
— Prefiro “pousou sem autorização”.
A nave soltou um ruído parecido com um soluço.
— Ela parece discordar.
Disse Marcos.
— Ela é dramática.
Respondeu Floshi.
Os três riram.
Floshi explicou que vinha do planeta Lume-Seis e estava fazendo uma pequena viagem com sua família quando a nave auxiliar apresentou um defeito. Ela fizera um pouso de emergência e agora precisava descobrir como consertá-la.
Lúcia se aproximou da máquina.
— Podemos ajudar.
Marcos segurou seu braço.
— Espere. A gente nem conhece ela.
Floshi abaixou a cabeça.
Os grandes olhos pareciam ainda maiores.
Lúcia olhou para Marcos.
— Também não conhecíamos o menino novo da escola quando emprestamos um lápis para ele.
— Mas ele não era verde.
Disse Marcos.
Houve silêncio.
Até o pombo, que não entendia nada daquela conversa, pareceu achar melhor não interromper.
Floshi deu dois passos para trás.
— Posso tentar sozinha.
Disse ela.
Lúcia ficou séria.
— Marcos, qual é exatamente o problema de ela ser verde?
Ele demorou a responder.
Talvez porque responder depressa fosse admitir que não havia pensado direito.
— Eu não disse que é um problema.
— Então por que mencionou?
Marcos chutou uma pedrinha.
— Porque é diferente.
Floshi sentou-se na grama.
— No meu planeta, eu não sou diferente.
Disse ela.
— Lá existem muitas pessoas verdes. Algumas azul-esverdeadas. Meu tio Brulo é quase amarelo quando fica nervoso, o que é bastante inconveniente porque toda a família percebe.
Lúcia riu.
Marcos acabou rindo também.
Nesse instante, ouviu-se um miado.
Um gatinho estava preso num galho alto da figueira. Provavelmente subira atrás de algum passarinho e depois descobrira uma verdade que muitos gatos preferem esconder: subir é mais fácil do que descer.
Lúcia tentou alcançá-lo.
Marcos puxou um banco.
Ainda assim, o galho estava muito alto.
Floshi abriu um dos bolsos de sua roupa.
Retirou um objeto minúsculo, apertou um botão e uma fita luminosa se esticou pelo ar.
— O que é isso?
Perguntou Marcos.
— Um levantador gravitacional.
Floshi pensou melhor.
— Ou é um descascador de frutas? Esses dois aparelhos são muito parecidos.
Marcos deu um passo para trás.
Floshi apertou outro botão.
A fita envolveu cuidadosamente o galho e o abaixou.
Lúcia pegou o gatinho.
Ele se acomodou em seus braços e começou a ronronar.
— Era o levantador.
Disse Floshi, aliviada.
Marcos ficou observando a menina alienígena enquanto ela guardava o aparelho.
Minutos antes, aqueles olhos enormes e aquela pele verde lhe pareciam motivos suficientes para manter distância.
Agora ele via outra coisa.
Floshi tinha acabado de ajudar um animal que nem conhecia.
Marcos apontou para a nave.
— Talvez eu consiga ajudar com aquela mola.
Floshi levantou os olhos.
— Você entende de naves?
— Não.
— Excelente.
Disse ela.
— Eu também não.
Os três se sentaram junto à nave.
Mexeram numa tampa, giraram duas peças e descobriram que uma delas não deveria ser girada, principalmente porque começou a tocar uma música muito desafinada.
Quando o céu ficou alaranjado, a nave ainda não estava consertada.
Mas alguma coisa tinha mudado.
Marcos estendeu a mão para Floshi.
— Desculpe pelo que falei.
Ela apertou sua mão.
— Tudo bem. Mas amanhã você pode me mostrar a cidade?
— Posso.
Respondeu Marcos.
Lúcia levantou um dedo.
— Nós podemos.
Floshi sorriu.
A nave soltou outro soluço metálico.
E foi assim que, numa cidade acostumada a dias iguais, aconteceu uma coisa extraordinária.
Não foi a chegada de uma nave espacial.
Nem mesmo o aparecimento de uma menina verde.
Foi uma coisa menor e, por isso mesmo, talvez maior:
alguém olhou duas vezes.
E, olhando pela segunda vez, enxergou melhor.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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Redação Sabeis – X