(19/10/26)
Precisamos refletir sobre o perigo de idolatrar pessoas, ou seja, tratá-las como se fossem seres divinos, messiânicos ou iluminados, enviados como salvadores e solucionadores de todos os problemas.
Esse fenômeno não vem de hoje. A idolatria de pessoas ocorre há muito tempo e pode estar presente na política, na religião, nos meios acadêmicos e até mesmo nas relações familiares.
São pessoas que, muitas vezes, constroem uma imagem de perfeição e até de divindade, imagem que também pode ser alimentada e reforçada por terceiros.
A racionalidade precisa prevalecer. Todos os seres humanos são imperfeitos, isto é, possuem qualidades e defeitos. É evidente que existem pessoas muito boas e generosas, que fazem muito bem ao ambiente em que vivem. No entanto, cultuá-las como se fossem anjos salvadores está longe de ser razoável ou verdadeiro.
Reconhecer as virtudes de alguém é uma coisa; transformá-lo em uma figura infalível, acima de qualquer crítica ou questionamento, é outra completamente diferente.
O ditado popular “Cuidado com o lobo em pele de cordeiro” permanece dolorosamente atual porque expõe uma das maiores fragilidades humanas: a desconexão entre o parecer e o ser. Tanto na vida pública quanto na privada, multiplicam-se os detentores de discursos puritanos, indivíduos que transformam valores morais e espirituais em instrumentos de manipulação.
Essa falta de coerência, muitas vezes, é estratégica. Ao vestir a “pele de cordeiro” da retidão inabalável, o lobo cria uma blindagem contra questionamentos. Afinal, quem ousaria duvidar de alguém que fala com tanta propriedade sobre virtude, moralidade e bons costumes? No entanto, o purismo exagerado no discurso pode esconder intenções que estão muito distantes daquilo que se proclama.
A verdadeira ética não precisa demonstrar santidade o tempo todo. Ela se revela, sobretudo, no silêncio das atitudes coerentes. Pessoas íntegras e verdadeiras não precisam ficar anunciando suas virtudes por meio de discursos ou palavras bonitas. Suas atitudes já falam por si. São autênticas, posicionam-se e expressam suas opiniões independentemente das opiniões e dos interesses dos outros. Sabem que o certo continua sendo certo e o errado continua sendo errado, mesmo quando não é conveniente. Reconhecem suas limitações, mas mantêm suas convicções, seus valores e seus princípios.
Já as pessoas dissimuladas, como sugere o próprio ditado, procuram se apresentar como valorosas, generosas e guardiãs da moral e dos bons costumes, enquanto escondem uma essência completamente contrária à imagem que constroem. Por isso, quando alguém faz muita propaganda de si mesmo, dizendo “eu faço”, “eu aconteço”, “eu sou isso”, “eu sou aquilo”, especialmente quando afirma realizar determinadas coisas quando ninguém está vendo, é preciso observar com atenção. Ao comparar as palavras com as ações, muitas vezes percebemos um verdadeiro abismo entre aquilo que a pessoa diz ser e aquilo que efetivamente demonstra ser.
Por isso, devemos observar mais as atitudes do que apenas os discursos. As palavras podem construir imagens, convencer, seduzir e até enganar. As atitudes, porém, revelam o caráter com muito mais precisão. Se aprendermos a fazer essa distinção, certamente evitaremos muitas frustrações e decepções causadas pela distância entre a expectativa e a realidade do caráter das pessoas.
Mas essa reflexão não deve servir apenas para julgarmos os outros. Também precisamos olhar para nós mesmos. Afinal, é muito fácil reconhecer a hipocrisia alheia e muito mais difícil perceber as próprias contradições. Mais importante do que parecer ético é procurar, de fato, viver de acordo com aquilo que defendemos.
No fim, caráter não é aquilo que proclamamos sobre nós mesmos, mas aquilo que fazemos quando não precisamos provar nada a ninguém. Ser sempre será mais importante do que parecer.
Não podemos confundir admiração com adoração. A adoração pertence ao Divino, ao Criador do mundo, a Deus, a Jesus e a tudo aquilo que envolve as questões espirituais e de fé, independentemente das crenças, da religião ou daquilo que faz sentido para cada pessoa.
Podemos admirar alguém por seu conhecimento, sua sabedoria, seus talentos, suas habilidades, sua conduta ou pela maneira como conduz sua vida. Podemos reconhecer seus méritos, aprender com essa pessoa e até encontrar nela uma fonte de inspiração. Entretanto, admirar não significa endeusar. Quando colocamos alguém em um pedestal e passamos a tratá-lo como superior aos demais, corremos o risco de atribuir a um ser humano um poder e uma autoridade que ele não deveria ter.
Nenhuma pessoa deve ocupar um lugar que pertence ao Divino. Por mais admirável que alguém seja, continuará sendo humana, sujeita a erros, contradições, limitações e mudanças. Reconhecer isso não diminui seus méritos; ao contrário, torna a admiração mais consciente, equilibrada e verdadeira.
Talvez esteja justamente aí a diferença entre admirar alguém e transformá-lo em um ídolo. Na admiração, reconhecemos as qualidades de uma pessoa sem deixar de enxergar sua humanidade. Na idolatria, porém, deixamos de olhar para a pessoa como ela realmente é e passamos a enxergar apenas a imagem idealizada que construímos dela.
E esse processo pode ser extremamente perigoso: quando alguém é colocado acima de qualquer crítica, seus erros passam a ser justificados, suas contradições são ignoradas e até suas atitudes mais perversas podem ser defendidas por aqueles que o idolatram. A história está repleta de exemplos de pessoas que, depois de conquistarem enorme poder e serem tratadas como infalíveis ou superiores, utilizaram essa devoção para manipular, oprimir e cometer atrocidades.
A idolatria, portanto, não é apenas um excesso de admiração; ela pode representar a perda da capacidade de questionar, discernir e reconhecer o mal. Nenhum ser humano merece uma devoção que nos faça fechar os olhos diante de seus erros. Quando transformamos pessoas em ídolos, deixamos de exercer nossa própria consciência, e é justamente nesse momento que a idolatria pode se transformar em permissão para que o outro faça o que quiser, sem limites e sem ser questionado.
XXXXXXXXX (PGIA)
Redação Sabeis – X
Juliana Lima
Redação Sabeis – Bem-Estar