(07/09/26)
Me deixa assustado a facilidade com que as pessoas mentem hoje em dia para ganhar vantagem, mesmo que isso empurre alguém para o prejuízo. Está em todo lugar, como se fosse parte da paisagem. A pessoa mente com a mesma naturalidade com que respira, sem ruborizar, sem hesitar, sem sequer pensar no estrago que deixa para trás. E o mais curioso é que ninguém mais parece se incomodar. A mentira virou um truque socialmente aceito, quase um talento. Quem domina, sobe na vida. Quem não domina, vira otário.
O cenário é sempre parecido. Alguém faz uma bobagem, percebe que pode se safar com uma historinha rápida e pronto: inventa. A mentira sai lisa, polida, ensaiada. A pessoa nem tropeça. E o outro, que sofre o impacto, fica ali tentando entender como alguém consegue distorcer a realidade com tanta desenvoltura. É como assistir a um espetáculo onde o ator principal não tem vergonha de improvisar qualquer coisa para não assumir seu erro. E o público, cansado, acaba aceitando.
Essas pequenas farsas do cotidiano carregam uma carga emocional que ninguém admite. A pessoa mente para se proteger, mas também para alimentar aquela sensação íntima de superioridade. É como se dissesse para si mesma: “Eu mereço mais do que o resto”. E, claro, se merece mais, pode trapacear. A mentira vira justificativa moral. O outro que aguente. O outro que limpe a bagunça. O outro que arque com o prejuízo. A lógica é simples e cruel.
E não pense que isso acontece só em grandes situações. Está no detalhe. No sujeito que diz que “não viu” o aviso. Na mulher que afirma que “não sabia” da regra. No jovem que garante que “não foi ele” quem causou o problema. Todos com aquela cara de inocência treinada, como se a vida fosse um jogo onde o objetivo é escapar de qualquer responsabilidade. E, claro, sempre há alguém que paga a conta.
O mais irônico é que, apesar de tanta esperteza, a mentira cobra seu preço. A pessoa precisa sustentar a versão inventada, lembrar dos detalhes, evitar contradições. É um esforço mental que vai se acumulando, criando tensão, irritação, desgaste. A culpa, mesmo escondida, fica ali, cutucando. E quanto mais a pessoa mente, mais precisa mentir para manter a história de pé. É uma espiral que não termina bem.
Mas existe outro lado, igualmente contraditório. A sociedade critica a mentira, mas também admira quem mente bem. Existe uma espécie de fascínio pela esperteza alheia, como se fosse uma habilidade de sobrevivência. A gente condena, mas também inveja tal capacidade. É um moralismo torto, que mistura indignação com voyeurismo. A pessoa vê o mentiroso se dar bem e pensa, mesmo que não admita: “Que sujeito esperto, como ele faz isso?”.
E enquanto isso, a convivência vai se deteriorando. A confiança se esfarela. A palavra perde valor. O olhar desconfiado vira padrão. Ninguém acredita em ninguém. E quando ninguém acredita em ninguém, tudo fica mais pesado. As relações ficam tensas, os ambientes ficam hostis, a vida fica mais cansativa. A mentira, que parecia solução rápida, vira veneno lento.
Ainda assim, há quem tente manter algum senso de decência. Gente que prefere falar a verdade, mesmo quando ela não rende vantagem. Gente que ainda acredita que honestidade não é coisa de bobo. Mas essa turma anda em extinção. E, convenhamos, remar contra a corrente exige coragem. Coragem que anda rara.
No fim, o que assusta não é a mentira em si, mas a naturalidade com que ela é usada. Como se fosse parte da rotina, como se não houvesse mais vergonha. E quando a vergonha desaparece, o resto vai junto. A verdade vira detalhe. A ética vira enfeite. E a convivência vira campo minado.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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