(31/08/26)
O céu azul daquela tarde parecia mais silencioso do que o normal. Não era um silêncio triste, mas um silêncio curioso, como se o próprio céu estivesse prestando atenção em alguma coisa importante. Pilu flutuava devagar, observando as sombras que o sol desenhava nas nuvens. Lira vinha logo atrás, fazendo pequenos zigue-zagues, como se estivesse treinando passos de dança invisíveis.
— Pilu.
Chamou Lira, aproximando-se.
— Você acha que o vento ficou chateado com o que Nimbo disse ontem?
Pilu pensou um pouco antes de responder. Ela não queria dar respostas prontas, porque sabia que Lira gostava de descobrir as coisas por conta própria.
— O vento não costuma guardar mágoas.
Disse ela.
— Ele passa tão rápido que não tem tempo de ficar preso em sentimentos que pesam.
Lira pareceu aliviada, mas ainda havia uma pontinha de dúvida em sua borda fininha.
— É que… quando Nimbo fala daquele jeito, eu fico meio perdida. Ele fala como se soubesse tudo, mas às vezes parece que ele inventa as coisas. E eu fico sem saber no que acreditar.
Pilu entendia bem o que Lira sentia. Era difícil quando alguém falava com tanta certeza que parecia impossível discordar, mesmo quando as palavras não combinavam com o que os olhos viam.
— A gente pode observar mais.
Sugeriu Pilu.
— Às vezes, quando alguém fala muito, o melhor é prestar atenção no que faz, não no que diz.
Lira abriu um sorriso leve, como um fio de luz.
— Gostei disso.
As duas continuaram flutuando até encontrarem Nimbo, que estava parado no meio do céu, inflado como sempre. Ele parecia ocupado demais olhando para baixo, como se estivesse fiscalizando o mundo.
— Ah, finalmente chegaram.
Disse ele, sem tirar os olhos do horizonte.
— Estava esperando vocês. Tenho novidades importantíssimas.
Pilu e Lira trocaram um olhar rápido. Nimbo e suas novidades importantíssimas eram quase um ritual diário.
— O que houve?
Perguntou Pilu, mantendo a voz calma.
Nimbo se virou devagar, como se estivesse prestes a revelar um grande mistério.
— Descobri que algumas nuvens andam duvidando de mim.
Disse ele, com um tom dramático.
— E isso é muito sério. Muito mesmo.
Lira se encolheu um pouco, surpresa.
— Duvidando… de você?
— Sim!
Respondeu Nimbo, inflando-se ainda mais.
— E eu sei exatamente quem são. Mas não vou dizer. Não quero causar confusão.
Pilu percebeu que Lira ficou inquieta. Era como se Nimbo tivesse jogado uma sombra no céu azul, uma sombra que não vinha do sol, mas das palavras.
— Nimbo.
Disse Pilu.
— Por que isso é tão sério?
Ele suspirou, como se carregasse o peso do mundo.
— Porque, Pilu, quando alguém duvida de mim, está duvidando da ordem do céu. Eu mantenho tudo funcionando. Se começarem a questionar, tudo pode desandar.
Lira franziu sua borda.
— Mas… o céu funciona mesmo se você estiver dormindo.
Disse ela, com sinceridade.
— Já aconteceu antes.
Nimbo fez uma expressão ofendida.
— Lira, você não entende. Eu deixo o céu funcionar sozinho às vezes, para treinar vocês. Mas, no fundo, sou eu quem garante que tudo fique no lugar.
Pilu observou Nimbo com atenção. Ele falava como se estivesse protegendo o céu, mas suas palavras pareciam mais preocupadas com ele mesmo do que com qualquer outra coisa. E havia algo novo: agora ele insinuava que alguém estava contra ele, sem dizer quem. Isso deixava o ar pesado, como se uma nuvem cinza estivesse se formando sem ninguém perceber.
— Nimbo.
Disse Pilu, com delicadeza.
— Você tem certeza disso? Que alguém está duvidando de você?
Ele hesitou por um instante, mas logo recuperou o tom firme.
— Absoluta. Eu sinto. E quando eu sinto, é verdade.
Lira olhou para Pilu, confusa.
— Mas… como você sente isso?
Nimbo deu um sorriso que não era exatamente um sorriso.
— Ah, Lira… algumas coisas a gente simplesmente sabe. Vocês ainda vão entender quando forem mais experientes.
Pilu percebeu que Lira estava ficando inquieta. A nuvem fininha começou a se mover de um lado para o outro, como se tentasse escapar de um pensamento que não queria ter.
— Pilu… será que ele está falando da gente?
Perguntou Lira, baixinho.
Pilu não respondeu de imediato. Ela queria escolher bem as palavras.
— Lira, quando alguém diz que “sabe” de algo, mas não explica como sabe, é bom ficar atenta. Às vezes, a pessoa fala assim para parecer mais certa do que realmente está.
Lira respirou fundo, absorvendo a ideia.
— Mas… e se ele estiver falando de mim? Eu fiz alguma coisa errada?
Pilu se aproximou dela, envolvendo-a com uma sombra suave.
— Não, Lira. Você só fez perguntas. E perguntar nunca é errado.
Nimbo, que fingia não ouvir, deu um pigarro exagerado.
— Bom, se vocês não têm nada a dizer, vou continuar minhas observações. O céu precisa de mim.
E saiu flutuando, espalhando-se como um tapete preguiçoso.
Lira ficou olhando para ele até que desapareceu atrás de um pedaço de sol.
— Pilu… por que ele fala essas coisas?
Perguntou ela.
— Parece que ele quer que a gente fique insegura.
Pilu pensou por um momento.
— Talvez ele fale assim para parecer mais importante. Ou para que ninguém questione o que ele diz. Quando alguém quer muito parecer certo, às vezes inventa histórias que deixam os outros confusos.
Lira ficou em silêncio, mas não era um silêncio triste. Era um silêncio de quem está aprendendo a enxergar melhor.
— Então… quando alguém fala coisas que deixam a gente duvidando da gente mesma… a gente precisa prestar atenção?
Perguntou ela.
Pilu sorriu.
— Exatamente. Prestar atenção e confiar no que a gente vê e sente. Nem tudo que parece verdade é verdade. E nem tudo que é dito com firmeza merece ser acreditado.
Lira respirou fundo, como se estivesse guardando aquela ideia dentro de si.
— Acho que estou começando a entender.
As duas seguiram flutuando juntas, enquanto o céu azul parecia ouvir a conversa com interesse. Era como se o próprio céu estivesse aprendendo também.
E Pilu sabia que aquele era apenas o começo. Ainda havia muito a descobrir sobre palavras que pareciam doces, mas deixavam um gosto estranho no ar.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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