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Sabeis

Crônicas

O Grande Teatro do Feedback Corporativo

(31/08/26)

As empresas adoram dizer que vivem de feedback. Juram que esse negócio é o oxigênio da performance, a vitamina da produtividade, a cola que mantém todo mundo alinhado. Criam calendários, rituais, reuniões obrigatórias, planilhas coloridas. Tudo muito bonito, muito moderno, muito “gente é tudo pra gente”. Mas, na prática, o tal feedback vira um teatro corporativo onde quem sabe atuar melhor ganha o aplauso, e quem entrega resultado de verdade às vezes sai com a pior nota. É o show da bajulação, e o ingresso é caro.

Porque, convenhamos, o gestor médio não foi treinado para dar feedback. Ele foi treinado para sobreviver. E, na selva do escritório, sobreviver significa agradar quem está acima e ser agradado por quem está abaixo. É um ecossistema delicado, quase poético, se não fosse trágico. Aí chega o dia do feedback e o gestor, coitado, precisa fingir que sabe analisar comportamento humano. Ele abre a reunião com aquele sorriso de quem decorou três frases prontas e torce para que nenhuma pergunta difícil apareça. É quase comovente.

Enquanto isso, o funcionário que realmente entrega resultado entra na sala achando que vai ouvir um “parabéns”. Mas não. Ele recebe um sermão sobre “postura”, “energia”, “visibilidade”. Porque, no fundo, o problema dele é não ter aprendido a arte milenar de puxar o saco no momento certo. Já o colega que vive encostado, mas sabe elogiar o gestor como quem recita poesia, sai da mesma reunião com um feedback digno de funcionário do mês. É a meritocracia do afeto.

E o mais curioso é que todo mundo sabe disso. Todo mundo comenta no café, no corredor, no grupo paralelo do WhatsApp. Mas, quando chega a hora de preencher o formulário oficial, todo mundo vira santo. A hipocrisia corporativa é tão bem organizada que daria inveja a qualquer instituição religiosa. A empresa diz que quer transparência, mas ninguém tem coragem de ser transparente de verdade. Porque ser sincero demais pode custar o bônus. E, convenhamos, ninguém quer brincar com o próprio bolso.

O mais engraçado, engraçado naquele sentido triste, claro, é que o feedback virou um evento. Um acontecimento. Algo que precisa ser celebrado, registrado, documentado. Como se fosse um casamento. Tem gente que até escolhe roupa especial para a reunião. E o gestor, para não ficar atrás, prepara um discurso que parece ter sido escrito por um coach motivacional com pressa. Tudo muito performático. Tudo muito artificial. Mas todo mundo finge que está funcionando, porque fingir é mais confortável do que admitir que o sistema está quebrado.

E está quebrado mesmo. Porque, se o feedback fosse levado a sério, ele seria contínuo, honesto, direto. Não dependeria de calendário. Não dependeria de coragem momentânea. Não dependeria de bajulação. Seria uma conversa real entre adultos. Mas, no ambiente corporativo, adultos são raros. O que temos são pessoas assustadas tentando parecer confiantes. E, nesse cenário, o feedback vira uma arma. Uma moeda. Um prêmio. Um castigo. Tudo, menos aquilo que deveria ser.

O mais irônico é que as empresas adoram falar em cultura. Cultura de colaboração, cultura de inovação, cultura de alta performance. Mas a cultura real, aquela que ninguém coloca no PowerPoint, é a cultura do “fala o que ele quer ouvir”. É a cultura do “não mexe com quem pode te prejudicar”. É a cultura do “elogia primeiro, critica depois, mas bem devagar”. E, claro, a cultura do “quem bajula mais, sobe mais rápido”. É quase científico.

E aí você vê profissionais brilhantes sendo engolidos por profissionais brilhantes apenas em autopromoção. Gente que entrega resultado sendo avaliada por gente que entrega discurso. E a empresa, lá de cima, olhando tudo e achando que está incentivando o desenvolvimento humano. Quando, na verdade, está incentivando o teatro humano. E teatro, como sabemos, depende de plateia. E a plateia somos nós.

No fim das contas, o feedback corporativo virou um ritual que ninguém acredita, mas todo mundo participa. Porque é preciso manter a aparência. É preciso parecer engajado. É preciso sorrir enquanto o gestor diz que você precisa “ser mais proativo”, mesmo que você esteja carregando o time nas costas há meses. É preciso aceitar que o colega que vive pedindo ajuda vai ganhar um feedback melhor porque sabe fazer elogios estratégicos. É preciso engolir a indignação com água e café.

Mas, veja bem, não estou dizendo que feedback não funciona. Ele funciona. Só não funciona do jeito que as empresas dizem. Funciona como termômetro da política interna. Como mapa das relações de poder. Como espelho da hipocrisia coletiva. E, se você olhar com atenção, até dá para rir. Rir daquele jeito meio desesperado, claro. Porque, no fundo, todo mundo sabe que o jogo é esse. E, mesmo assim, continua jogando.

Cláudio Sampaio (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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