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Sabeis

Baú de contos

Pilu e o céu que conversava

(24/08/26)

No alto do céu azul, onde o vento parecia brincar de empurrar pensamentos, vivia Pilu, uma nuvem tão fofinha que até o sol gostava de fazer cócegas nela com seus raios. Pilu era redondinha, macia e tinha um brilho discreto, como se guardasse dentro de si uma alegria que não precisava de barulho para existir. Ela gostava de observar o mundo lá embaixo, mas gostava ainda mais de conversar com as outras nuvens que passavam por ali, cada uma com seu jeito de ser.

Entre essas nuvens, duas eram suas companheiras mais frequentes: Nimbo e Lira. Nimbo era enorme, espalhado, sempre tentando ocupar mais espaço do que realmente precisava. Ele falava alto, como se o céu inteiro fosse seu palco. Já Lira era fininha, rápida, quase dançante. Ela se movia como quem segue uma música que só ela escuta, e fazia perguntas que deixavam Pilu pensando por horas.

Naquela manhã, o céu estava tão azul que parecia recém-pintado. Pilu flutuava devagar, aproveitando o silêncio, quando ouviu a voz de Nimbo ecoar.

— Atenção, atenção!

Anunciou ele, inflando-se ainda mais.

— Hoje eu descobri um segredo importantíssimo sobre o vento.

Pilu sorriu. Nimbo sempre tinha um “segredo importantíssimo” para contar. Geralmente eram coisas que ele inventava na hora, mas ninguém dizia nada porque era divertido ouvir suas histórias exageradas.

Lira chegou deslizando, curiosa como sempre.

— Que segredo é esse?

Perguntou, girando em volta de Nimbo como um laço de fita.

— Ah, Lira, você não vai acreditar!

Disse Nimbo, fazendo uma pausa dramática.

— O vento só sopra forte quando eu deixo. Ele me respeita demais para fazer qualquer coisa sem minha permissão.

Pilu quase deixou escapar uma risadinha, mas segurou. Ela sabia que Nimbo gostava de parecer importante, mesmo quando dizia coisas que não faziam sentido. Lira, por outro lado, franziu sua borda fininha.

— Mas… o vento não sopra porque quer?

Perguntou ela.

— Ele não tem vontade própria?

Nimbo se esticou ainda mais, como se quisesse tocar o sol.

— Claro que não!

Respondeu.

— Ele só finge que tem vontade própria para parecer independente. Mas no fundo, ele sabe que eu mando em tudo por aqui.

Pilu observou Nimbo com atenção. Havia algo estranho naquele jeito dele falar. Não era só exagero. Era como se ele tentasse convencer as outras nuvens de que era mais importante do que realmente era. E, pior, como se quisesse que elas acreditassem que o vento dependia dele para existir.

Lira parecia confusa.

— Mas ontem você disse que o vento te empurrou sem pedir licença.

Lembrou ela.

— Você ficou até bravo.

Nimbo deu uma risadinha curta.

— Ah, aquilo? Eu só disse aquilo para ver se vocês estavam prestando atenção. Na verdade, eu deixei o vento me empurrar. Foi tudo parte do meu plano.

Pilu sentiu um incômodo leve, como um arrepio de brisa. Algo naquela conversa não estava certo. Ela não entendia exatamente o que era, mas sabia que Nimbo estava dizendo coisas que não combinavam com o que ele mesmo dizia antes. E, mesmo assim, falava como se fosse dono da verdade.

— Nimbo.

Disse Pilu, com sua voz suave.

Por que você precisa dizer que controla o vento?

Ele se virou para ela, inflando-se mais uma vez.

— Porque é verdade, Pilu. E, além disso, vocês precisam de alguém que saiba das coisas. Se eu não explicar como o céu funciona, quem vai explicar?

Lira deu uma voltinha rápida, pensativa.

— Mas… você não explicou. Você só disse que manda no vento.

Nimbo fez um som parecido com um suspiro impaciente.

— Lira, Lira… você é tão novinha. Ainda não entende como as coisas funcionam. Às vezes, para manter a ordem, alguém precisa falar com segurança. Mesmo que os outros não compreendam.

Pilu percebeu que Lira ficou ainda mais confusa. E percebeu também que Nimbo falava como se estivesse ajudando, mas na verdade estava deixando tudo mais complicado. Ele dizia coisas que não eram verdade, mas falava com tanta certeza que parecia querer que as outras nuvens duvidassem delas mesmas.

O vento passou correndo, brincalhão, empurrando as três nuvens de leve. Lira riu. Pilu também. Nimbo fingiu que não tinha sido empurrado.

— Viram?

Disse ele.

— Ele só fez isso porque eu deixei.

Pilu olhou para o vento, que já estava longe, e depois para Nimbo. Ela não queria brigar, nem fazer Nimbo se sentir mal. Mas também não queria que Lira acreditasse em coisas que não faziam sentido.

— Nimbo.

Disse ela, com calma.

— Às vezes parece que você diz coisas só para parecer mais importante. E isso deixa a gente meio perdida.

Nimbo se encolheu um pouco, mas logo voltou a se inflar.

— Eu? Nunca! Eu só digo a verdade. Se vocês não entendem, não é culpa minha.

Lira se aproximou de Pilu, como quem busca abrigo.

— Pilu… por que ele fala assim?

Perguntou baixinho.

Pilu pensou. Não queria dar uma resposta pronta. Queria que Lira entendesse por si mesma.

— Talvez.

Disse ela.

— Ele tenha medo de parecer pequeno. E, para não parecer pequeno, diz coisas que fazem ele parecer grande. Mesmo que não sejam verdade.

Lira ficou em silêncio, absorvendo a ideia.

Nimbo, que fingia não ouvir, olhou para o horizonte como se estivesse muito ocupado para aquela conversa.

Pilu percebeu que aquele seria um dia importante. Um dia em que ela e Lira aprenderiam a olhar para as palavras com mais cuidado. Porque às vezes alguém dizia algo com tanta certeza que parecia verdade… mesmo quando não era.

E, enquanto flutuavam juntas pelo céu azul, Pilu decidiu que ajudaria Lira a perceber quando alguém falava só para parecer melhor do que era. Não para apontar dedos, mas para que nenhuma nuvem se confundisse com histórias que não combinavam com a realidade.

Afinal, o céu era grande demais para que as nuvens vivessem acreditando em coisas que não ajudavam ninguém a crescer.

Keila Martins de Oliveira (PGIA)

Redação Sabeis – Baú de contos

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