(10/08/26)
Estela, a estrelinha roxa que brilhava como quem guarda perguntas no bolso, estava observando o universo com aquele olhar luminoso de quem percebe que algo não está exatamente no lugar. Ela piscava devagar, como quem tenta ouvir um segredo que o espaço ainda não decidiu contar.
Lúnio, seu amigo satélite, girava ao redor dela com a precisão de um relógio que se recusa a atrasar. Póli, a nuvem de poeira cósmica, tentava virar um castelo, mas parecia mais um bolo de aniversário que alguém esqueceu no vento.
— Estela, você está com aquela cara de quem vai descobrir alguma coisa.
Disse Lúnio, tentando não girar rápido demais.
— Não é cara, é brilho.
Corrigiu Póli, que naquele momento parecia um chapéu de festa.
Estela sorriu. Ou melhor, brilhou sorrindo.
— Acho que os planetas estão discutindo.
Disse ela.
— E não é discussão de brincadeira. É discussão séria.
Lúnio parou de girar por um instante, o que era quase um acontecimento histórico.
— Planetas discutindo? Sobre o quê?
Póli virou um ponto de interrogação, depois dois, depois três, como se estivesse tentando ajudar.
Estela apontou com seu brilho para um canto do sistema estelar onde vários planetas estavam reunidos, cada um girando de um jeito diferente, como se tivessem esquecido o ritmo combinado. Era o Parlamento dos Planetas, um encontro que acontecia apenas quando algo muito importante precisava ser decidido.
— Vamos lá.
Disse Estela.
— Eles podem precisar de ajuda.
Quando chegaram, perceberam que o clima estava tenso. O planeta Vermelhão reclamava que o planeta Azulão estava girando rápido demais e levantando poeira espacial. Azulão retrucava dizendo que Vermelhão estava ocupando espaço demais na órbita compartilhada. O planeta Douradinho, sempre vaidoso, dizia que ninguém respeitava seu brilho. E o planeta Cinzento, que falava pouco, apenas suspirava, o que no espaço parecia um vento frio.
— Isso não vai dar certo.
Murmurou Lúnio.
Póli virou uma placa com a palavra calma, mas a placa parecia mais um biscoito quebrado.
Estela se aproximou devagar, sem querer assustar ninguém.
— O que está acontecendo?
Vermelhão foi o primeiro a responder.
— Estamos tentando decidir uma nova organização das órbitas. Mas ninguém concorda com nada.
Azulão girou indignado.
— Ele quer que eu diminua minha velocidade. Eu gosto de correr.
Douradinho interrompeu.
— E ninguém reconhece que meu brilho merece mais espaço.
Cinzento suspirou de novo, o que fez uma pequena onda de poeira se levantar.
Estela percebeu que não era apenas uma discussão sobre órbitas. Era sobre convivência. Sobre como cada planeta queria ser visto, ouvido e respeitado. E, claro, sobre como Nebulon adorava aparecer quando havia confusão.
E ele apareceu.
Nebulon surgiu como uma sombra que se estica para parecer maior do que é.
— Que bela confusão!
Disse ele, com aquela voz que parecia ecoar dentro da própria escuridão.
— Posso ajudar a resolver. Basta cada planeta ficar sozinho, sem dividir nada com ninguém. Sem órbitas compartilhadas, sem encontros, sem debates. Silêncio e ordem. Perfeito.
Os planetas ficaram tentados. A ideia de não precisar negociar parecia confortável. Mas Estela sentiu um arrepio luminoso.
— Isso não é solução.
Disse ela.
— É isolamento.
Nebulon se aproximou, espalhando sombras.
— Isolamento é paz.
Estela balançou seu brilho, firme.
— Paz não é ficar sozinho. Paz é aprender a conviver.
Os planetas ficaram em silêncio. Não o silêncio pesado de Nebulon, mas aquele silêncio que aparece quando alguém diz algo que faz sentido.
Nebulon tentou envolver os planetas em sua sombra, mas Estela brilhou forte, tão forte que parecia que o universo tinha acendido uma lanterna gigante. Lúnio girou ao redor dela, espalhando o brilho como quem espalha tinta colorida. Póli virou uma lente mais uma vez, ampliando a luz até que ela atravessasse a sombra de Nebulon.
— Vocês não precisam concordar em tudo.
Disse Estela.
— Mas precisam se ouvir. Cada órbita pode ser ajustada se vocês conversarem de verdade.
Vermelhão olhou para Azulão.
— Talvez eu possa diminuir um pouco meu tamanho na órbita.
Azulão respondeu:
— E talvez eu possa correr só um pouquinho menos.
Douradinho suspirou, mas dessa vez de alívio.
— Eu posso brilhar um pouco menos quando estiver perto de vocês, para não atrapalhar.
Cinzento finalmente falou.
— Eu posso ajudar a medir as distâncias. Sou bom com números.
Nebulon encolheu, irritado.
— Vocês são insuportavelmente colaborativos!
Estela sorriu.
— É assim que o universo funciona.
Nebulon desapareceu, deixando apenas um rastro de sombra que logo se dissolveu.
Os planetas reorganizaram suas órbitas com calma, conversando, discordando, ajustando, tentando de novo. E quando terminaram, o Parlamento dos Planetas parecia mais leve, como se tivesse aprendido uma dança nova.
Lúnio girou feliz. Póli virou um confete de poeira. Estela brilhou satisfeita.
— Às vezes.
Disse ela.
— Basta ouvir para que tudo volte a girar no ritmo certo.
E o universo, mais uma vez, pareceu concordar.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
XXXXXXXXX
Redação Sabeis – X