(06/08/26)
Estela, a estrelinha roxa que brilhava como quem guarda segredos luminosos, estava numa noite particularmente inquieta. Não era inquietação de medo, nem de tristeza. Era aquela inquietação boa, que dá cócegas na curiosidade e faz a gente querer descobrir o que ainda não sabe. Ela piscava rápido, como se estivesse treinando para uma aventura que nem sabia qual seria.
Lúnio, seu amigo satélite, girava ao redor dela com a elegância de quem acredita que girar é uma forma de pensar. Póli, a nuvem de poeira cósmica, tentava virar um polvo espacial, mas parecia mais um carangueijo com pernas demais.
— Estela, você está brilhando diferente hoje.
Disse Lúnio, tentando acompanhar o ritmo das piscadas.
— Acho que estou sentindo um chamado.
Respondeu ela.
— Como se o universo estivesse me cutucando.
Póli virou um ponto de exclamação, depois um ponto de interrogação, depois um ponto final. Era seu jeito de dizer que estava prestando atenção.
Foi então que o espaço tremeu. Não um tremor de medo, mas um tremor de aviso. Um cometa passou correndo, deixando um rastro de poeira que parecia uma frase interrompida. Estela tentou ler, mas o cometa era apressado demais.
— Isso não é normal.
Disse Lúnio, girando mais rápido.
— O cometa devia estar seguindo sua órbita certinha.
Estela sentiu o mesmo. Algo estava bagunçando as órbitas. E quando as órbitas se bagunçam, o universo começa a tropeçar em si mesmo.
— Vamos investigar.
Disse ela, com aquela coragem que parecia ter nascido junto com seu brilho.
Os três seguiram o rastro do cometa até chegarem ao Labirinto das Órbitas Teimosas, um lugar onde caminhos circulares se cruzavam como se estivessem discutindo quem tinha prioridade. Era um labirinto vivo, que mudava de forma sempre que alguém tentava entendê-lo.
— Eu não gosto daqui.
Murmurou Lúnio, que preferia órbitas previsíveis.
Póli tentou virar um mapa, mas parecia mais um guardanapo amassado.
Estela avançou, mesmo sabendo que o labirinto adorava confundir viajantes. E foi aí que o viram: Nebulon, a nebulosa vilanesca, pairando no centro do labirinto como se fosse o dono do caos.
— Vocês de novo!
Disse ele, com aquela voz que parecia sombra.
— Vieram arrumar o que eu desarrumei?
Estela respirou fundo, mesmo sem precisar respirar.
— Por que está mexendo nas órbitas?
Nebulon se expandiu, como quem quer ocupar mais espaço só para provar que pode.
— Porque o universo está previsível demais. Todo mundo seguindo caminhos certinhos, sem questionar nada. Resolvi dar um empurrãozinho para ver se alguém acorda.
Lúnio quase perdeu o eixo.
— Mas isso é perigoso! As órbitas existem por um motivo.
Nebulon riu, ou fez algo parecido com rir.
— Motivos são superestimados.
Estela sentiu um calor dentro de si. Não era raiva. Era determinação.
— Bagunça não é liberdade.
Disse ela.
— Liberdade é escolher o caminho, não ser empurrado para ele.
Nebulon pareceu irritado. O labirinto começou a girar, como se estivesse tentando engolir os três amigos. As órbitas se cruzavam, se dobravam, se esticavam. Era como estar dentro de um carrossel que não sabia quando parar.
Póli virou uma seta gigante, apontando para um caminho que parecia menos perigoso. Estela seguiu a seta, confiando no instinto do amigo. Lúnio girava ao redor dela, criando um campo de estabilidade que impedia o labirinto de puxá-los para longe.
— Vocês não vão conseguir.
Disse Nebulon, espalhando sombras pelo caminho.
— O labirinto obedece a mim.
Estela sorriu, mesmo cansada.
— Labirintos adoram quem não desiste.
Ela então fez algo inesperado: começou a brilhar de forma ritmada, como se estivesse batendo um tambor luminoso. Cada pulsação criava uma onda que reorganizava as órbitas ao redor. Lúnio acompanhou o ritmo, girando em círculos cada vez mais precisos. Póli virou uma lente novamente, ampliando o brilho.
O labirinto começou a se acalmar. As órbitas, antes teimosas, passaram a seguir o ritmo de Estela, como se reconhecessem ali uma música antiga que tinham esquecido. Nebulon tentou resistir, mas a luz atravessou sua sombra.
— Vocês são irritantemente persistentes.
Disse ele, diminuindo de tamanho.
— Persistência é uma forma de cuidado.
Respondeu Estela.
Nebulon desapareceu, deixando o labirinto finalmente quieto. As órbitas voltaram aos seus caminhos, como se estivessem aliviadas por não precisarem mais discutir entre si.
Lúnio parou de girar por um instante, o que era raro.
— Você salvou tudo de novo.
Estela balançou o brilho, como quem dá de ombros.
— Ninguém salva nada sozinho. Vocês estavam comigo.
Póli virou um coração torto, mas cheio de boas intenções.
Os três deixaram o labirinto, sentindo o universo respirar mais leve. Estela piscou devagar, como quem agradece por ter amigos que iluminam até os caminhos mais confusos.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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