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Sabeis

Baú de contos

A travessia de Estela pelo silêncio cósmico

(23/07/26)

Estela era uma estrelinha roxa que brilhava como se tivesse engolido um punhado de amanheceres. Não era grande, nem queria ser. Preferia ser do tamanho exato para caber nos bolsos da imaginação de quem olhasse para o céu. Vivia num canto tranquilo da Via Láctea, onde as constelações conversavam baixinho para não acordar os cometas que dormiam tarde.

Numa noite que parecia igual às outras, Estela percebeu algo estranho: o espaço estava silencioso demais. Não o silêncio normal do espaço, aquele que parece um cobertor macio. Era um silêncio duro, que não deixava nem os pensamentos passarem. Até os meteoros, sempre tagarelas, estavam quietos. Estela piscou três vezes, como fazia quando queria entender alguma coisa. Nada aconteceu. O silêncio continuava ali, pesado como um planeta mal-humorado.

Foi então que surgiram seus dois amigos: Lúnio, um satélite natural que adorava fazer círculos perfeitos, e Póli, uma nuvem de poeira cósmica que vivia mudando de forma só para se divertir. Lúnio chegou girando, como sempre, e Póli veio flutuando, tentando parecer um dragão, mas parecia mais um guarda-chuva torto.

— Estela, você também sentiu?

Perguntou Lúnio, tentando não girar rápido demais para não parecer nervoso.

— Senti.

Respondeu ela.

— O espaço está calado. Calado demais.

Póli tentou virar um ponto de interrogação, mas acabou parecendo um caracol.

— Será que alguém desligou o som do universo?

Estela riu, mas era uma risada curta. Algo estava errado. E quando algo está errado no espaço, geralmente tem a ver com Nebulon, o vilão mais rabugento da galáxia. Nebulon era uma nebulosa escura que acreditava que o universo ficaria muito mais organizado se ninguém falasse, cantasse, sonhasse ou fizesse perguntas. Ele gostava de silêncio absoluto, como se fosse um prêmio.

— Acho que Nebulon está aprontando.

Disse Estela.

— E se ele estiver, não vai parar sozinho.

Lúnio girou tão rápido que quase virou um pião espacial.

— Você não está pensando em ir atrás dele, está?

Estela estava. E quando Estela pensava em alguma coisa, era difícil convencê-la do contrário. Não por teimosia, mas porque ela tinha uma coragem que brilhava mais forte que seu próprio corpo.

— Se o universo perdeu a voz, alguém precisa devolvê-la.

Disse ela.

— E eu quero tentar.

Póli se ajeitou, tentando parecer uma armadura. Não conseguiu, mas a intenção era boa.

— Então vamos juntos.

E assim começaram a travessia pelo Silêncio Cósmico, uma região onde até as estrelas mais velhas evitavam entrar. À medida que avançavam, o brilho de Estela parecia diminuir. Não porque ela estivesse com medo, mas porque o silêncio sugava um pouco da luz de tudo.

Lúnio tentava animar o grupo contando histórias de crateras famosas, mas sem som, as histórias viravam apenas movimentos de boca. Póli fazia mímicas, mas ninguém sabia se ele estava representando um leão, um foguete ou uma gelatina.

Depois de um tempo que não dava para medir, encontraram Nebulon. Ele pairava no centro de um redemoinho escuro, como se fosse o dono da noite.

— Então vocês vieram.

Disse ele, sem som, mas de um jeito que todos entenderam.

— Vieram tentar bagunçar meu silêncio.

Estela avançou um pouco, mesmo sentindo o peso do silêncio apertando seu brilho.

— O universo não foi feito para ser mudo. Ele precisa de risadas, conversas, músicas, até dos barulhos que ninguém entende.

Nebulon se expandiu, como se estivesse rindo sem som.

— O barulho atrapalha. O silêncio é perfeito.

Estela respirou fundo, mesmo sem precisar respirar.

— O silêncio é importante, sim. Mas só quando é escolha. Quando vira regra, vira prisão.

Nebulon não gostou. O redemoinho ficou mais escuro. Lúnio e Póli se aproximaram de Estela, como se quisessem lembrá-la de que ela não estava sozinha.

Estela então fez algo inesperado: começou a brilhar. Primeiro devagar, depois mais forte. Era um brilho que parecia contar histórias, cantar músicas, fazer perguntas. Um brilho que lembrava que existir é fazer barulho de algum jeito.

Nebulon tentou abafar a luz, mas quanto mais tentava, mais Estela brilhava. Lúnio começou a girar ao redor dela, espalhando o brilho como quem espalha sementes. Póli se transformou numa lente gigante, ampliando a luz até que ela atravessasse o redemoinho.

O silêncio começou a rachar. Primeiro um estalo, depois outro. Até que, de repente, o som voltou. Não um som específico, mas todos os sons juntos: risadas de estrelas, assobios de cometas, roncos de planetas sonolentos.

Nebulon encolheu, irritado, mas não derrotado.

— Vocês venceram hoje. Mas o silêncio sempre volta.

Estela sorriu.

— E nós sempre voltaremos também.

Nebulon desapareceu, deixando apenas um rastro de sombra. O universo respirou aliviado.

Lúnio girou feliz. Póli virou um confete de poeira. Estela, cansada mas contente, voltou a brilhar como antes, talvez até um pouco mais.

— Conseguimos.

Disse ela.

E o universo respondeu com um coro de sons que pareciam agradecer.

Keila Martins de Oliveira (PGIA)

Redação Sabeis – Baú de contos

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