(18/06/26)
Era uma segunda-feira com cara de domingo. O céu estava cinza, a escola parecia mais silenciosa que o normal e até o recreio parecia ter esquecido de tocar o sinal. Túlio, que nunca deixava passar uma oportunidade de transformar o tédio em aventura, estava sentado no banco do pátio, rabiscando nomes no caderno. Escreveu “Túlio” em letras grandes, depois “Dudu”, “Laila”, “Beto”. Depois começou a inventar nomes: Zazulino, Maricota, Fefelina, Jorgêncio. Cada nome parecia puxar outro, como se estivessem escondidos num canto da memória.
Laila se aproximou e perguntou o que ele fazia.
— Tô resgatando nomes esquecidos.
Disse Túlio, com um ar de quem sabia exatamente o que estava fazendo, mesmo sem saber. Dudu chegou logo depois, mastigando uma maçã e dizendo que nomes não se perdem, só se escondem. Beto, como sempre, não disse nada, mas tirou do bolso um papel dobrado com um nome escrito: “Aniceto”.
— Esse era o nome do meu bisavô.
Explicou.
— Ninguém mais fala dele.
Foi aí que tudo começou. Naquela tarde, a professora Marli levou a turma para uma atividade na biblioteca. Mas não na invisível, na oficial, com estantes organizadas e cheiro de livro novo. Pediu que cada aluno escolhesse um livro com um nome no título. Túlio procurou por “O Pequeno Príncipe”, mas acabou encontrando um livro sem capa, com páginas amareladas e um título quase apagado: “O Reino dos Nomes Perdidos”. Sentiu um arrepio. Era como se o livro tivesse esperado por ele.
Ao abrir, uma folha caiu. Nela, uma frase escrita à mão:
— Todo nome esquecido vira semente de silêncio.
Túlio leu em voz alta. Laila se aproximou. Dudu também. Beto já estava ali, como se soubesse que algo mágico ia acontecer. E aconteceu. As letras do livro começaram a brilhar. A sala sumiu. O chão virou nuvem. E os quatro amigos foram sugados para dentro da história.
Aterrissaram num campo de letras flutuantes. Árvores com folhas em forma de vogais. Rios que sussurravam sílabas. E ao longe, um castelo feito de livros empilhados. Um ser alto, com barba de papel e olhos de tinta, os recebeu.
— Bem-vindos ao Reino dos Nomes Perdidos.
Disse ele.
— Sou o Arquivista. E vocês foram escolhidos para uma missão.
A missão era simples e impossível: encontrar os nomes que haviam sido esquecidos pelas pessoas e devolvê-los ao mundo.
— Cada nome esquecido é uma história que se apaga.
Explicou o Arquivista.
— E quando muitas histórias se apagam, o mundo fica mais vazio.
Túlio sentiu um nó na garganta. Pensou na avó que sempre contava histórias de uma tia chamada Zulmira. Ninguém mais falava dela.
Guiados por um mapa feito de palavras, os amigos partiram. Encontraram nomes presos em gaiolas de silêncio, outros escondidos em cavernas de esquecimento. Cada vez que libertavam um nome, uma flor nascia no chão.
— Este é o nome de uma menina que adorava dançar sozinha no quintal.
Dizia uma flor.
— Este era de um menino que inventava palavras novas todo dia.
Dizia outra.
Mas havia um nome que ninguém conseguia encontrar: o nome de Túlio. Ele procurou em todos os cantos do reino, mas seu próprio nome parecia ter sumido.
— Será que eu também fui esquecido?
Perguntou, com os olhos marejados. O Arquivista se aproximou e disse:
— Às vezes, a gente precisa se perder um pouco para se lembrar de quem é.
Foi então que Laila teve uma ideia. Pegou o caderno de Túlio e escreveu: “Túlio é aquele que transforma silêncio em riso, confusão em poesia, e amizade em aventura.” Dudu completou: “Túlio é nome de quem não deixa o mundo ficar chato.” Beto desenhou um sol com o nome “Túlio” no centro. E então, o nome apareceu no céu do reino, brilhando como uma constelação.
O chão tremeu. As letras dançaram. E os quatro amigos foram levados de volta à biblioteca da escola. O livro estava fechado. A folha com a frase havia sumido. Mas no caderno de Túlio, havia uma nova página, escrita com caligrafia antiga: “Obrigado por devolverem os nomes. Agora, eles florescerão em cada palavra que vocês disserem com amor.”
Na saída da escola, Túlio olhou para os colegas e disse:
— Acho que a gente nunca mais vai esquecer o poder de um nome.
Laila sorriu. Dudu fez uma careta dramática. Beto desenhou um coração com quatro nomes dentro. E assim, com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, eles seguiram para casa, prontos para a próxima confusão ou poesia.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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