(19/03/26)
Na escola de Túlio, tudo podia virar competição. Quem comia mais rápido, quem pulava mais alto, quem sabia mais nomes de dinossauros. Mas naquela semana, a professora Marli teve uma ideia diferente: um concurso de histórias inventadas.
— Quero ver quem consegue criar a melhor mentirinha verdadeira!
Disse ela, com um sorriso misterioso. Túlio arregalou os olhos. Mentirinha verdadeira? Isso era coisa de adulto que diz que vai dar presente e aparece com meia.
Mas a proposta era clara: cada aluno deveria inventar uma história que parecesse mentira, mas que tivesse um fundo de verdade.
— Pode exagerar, pode fantasiar, mas tem que ter algo que seja possível, mesmo que improvável.
Explicou Marli. Túlio já começou a imaginar um jacaré que andava de skate e morava no telhado da escola. Dudu sugeriu um elevador secreto que levava direto para Marte. Laila pensou numa menina que conversava com formigas e sabia todos os segredos do recreio. Beto, como sempre, ficou quieto, mas anotava tudo num caderninho.
Durante os dias seguintes, a sala virou um laboratório de imaginação. Túlio, com sua alegria contagiante, decidiu que sua história seria sobre um menino que descobria que podia mudar o mundo com palavras. Ele falava “paz” e as pessoas paravam de brigar. Dizia “bolo” e aparecia um bolo de chocolate. Mas só funcionava se ele estivesse com os amigos. Sozinho, as palavras não tinham poder.
No dia da apresentação, cada aluno subiu no palco improvisado da sala. As histórias eram incríveis. Teve uma menina que virou amiga de um fantasma que morava no armário da escola. Um menino que descobriu que os lápis tinham sentimentos e choravam quando eram apontados demais. E então chegou a vez de Túlio. Ele subiu com seu jeito sapeca, fez uma reverência exagerada e começou a contar sua história com tanta empolgação que até os quadros na parede pareciam prestar atenção.
Quando terminou, a sala ficou em silêncio por um segundo. Depois, uma explosão de aplausos. A professora Marli sorriu, mas antes de anunciar o vencedor, pediu que todos refletissem:
— Qual dessas histórias, mesmo sendo inventada, nos faz pensar sobre o que é verdade?
A turma ficou pensativa. Dudu levantou a mão e disse:
— A do Túlio. Porque às vezes a gente só consegue mudar as coisas quando tá junto.
Laila concordou. Beto levantou o caderninho e mostrou que tinha desenhado a palavra “amizade” com várias cores.
Marli então fez algo inesperado. Não escolheu um vencedor. Disse que todas as histórias tinham vencido, porque todas tinham conseguido transformar mentiras em verdades emocionais. Túlio ficou meio decepcionado, ele queria ganhar um troféu de papel alumínio que Dudu tinha prometido fazer. Mas depois percebeu que o melhor prêmio era ver todo mundo refletindo, rindo e se emocionando com as histórias.
Na saída, Túlio teve uma ideia. Pegou uma folha em branco e escreveu: “A verdade mora onde a imaginação tem coragem de brincar.” Dobrou o papel e colocou dentro de um dos livros da biblioteca secreta. Era o começo de uma nova história. Ou talvez o fim de uma mentirinha verdadeira.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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