(12/02/26)
Túlio acordou naquela terça-feira com uma ideia que brilhava mais que o sol da manhã: ele queria descobrir onde ficava a tal biblioteca secreta da escola. Diziam que existia uma sala escondida, cheia de livros que ninguém mais lia, com histórias tão antigas que até os fantasmas tinham medo de abrir. Claro que isso era exagero do Dudu, seu amigo mais mentiroso e criativo, mas Túlio adorava exageros. E mistérios. E confusões.
Na hora do recreio, ele reuniu sua trupe: Dudu, que era especialista em inventar mapas; Laila, que tinha olhos de águia e ouvidos de morcego; e Beto, que não falava muito, mas sempre carregava uma lanterna no bolso, “vai que a luz acaba”, dizia. Eles se encontraram atrás do pátio, perto da porta trancada que levava ao porão da escola. Era ali que, segundo Dudu, começava o caminho para a biblioteca secreta.
Túlio, com sua alegria elétrica, girou a maçaneta com a solenidade de um explorador. Estava trancada, claro. Mas Laila, que tinha um talento especial para encontrar chaves perdidas, puxou do bolso um molho de chaves que havia achado no corredor dos professores. “Não é roubo, é resgate”, disse ela, piscando. Depois de algumas tentativas, a porta rangeu como se estivesse acordando de um sono de cem anos.
Lá dentro, o cheiro de mofo e papel velho era tão forte que parecia que os livros respiravam. Túlio sentiu um arrepio, mas não de medo, era de empolgação. Eles desceram os degraus com cuidado, iluminados pela lanterna de Beto, até encontrarem uma porta de ferro com uma placa enferrujada: “Sala de Arquivo — Proibida a Entrada”. Era ali. Tinha que ser.
Dudu tentou empurrar a porta, mas ela não cedia. Laila encontrou um botão escondido atrás de um quadro torto. Ao apertá-lo, a porta se abriu com um estalo. E lá estava ela: a biblioteca secreta. Mas não era secreta de verdade, era só esquecida. Prateleiras altas, livros empoeirados, cadeiras de madeira com almofadas rasgadas. E no centro, uma mesa com um livro aberto, como se alguém tivesse saído correndo no meio da leitura.
Túlio se aproximou e leu em voz alta:
— Quem lê, vive mil vidas. Quem não lê, vive só a sua.
Ele olhou para os amigos e sorriu. Aquilo era mais do que uma aventura, era um convite. Cada um pegou um livro ao acaso. Dudu achou um sobre dragões que falavam francês. Laila encontrou um diário de uma menina que conversava com árvores. Beto escolheu um livro sem título, só com desenhos. E Túlio? Ele pegou um livro chamado “O menino que inventava confusões”.
Ao abrir, percebeu que o personagem principal se chamava Túlio. E que ele também tinha amigos chamados Dudu, Laila e Beto. E que eles tinham acabado de entrar numa biblioteca secreta. Túlio arregalou os olhos.
— Gente… acho que esse livro tá escrevendo a gente.
Os outros riram, mas quando olharam para as páginas, viram seus nomes ali, com tudo o que tinham acabado de fazer.
— Será que a gente tá preso aqui dentro?
Perguntou Dudu, meio pálido.
— Ou será que a gente é personagem de um livro que ainda está sendo escrito?
Disse Laila, com um brilho nos olhos. Beto, como sempre, ficou em silêncio, mas apontou para o final da página, onde as palavras iam desaparecendo, como se esperassem que alguém as completasse.
Túlio pegou uma caneta que estava sobre a mesa e escreveu: “E então, os quatro amigos decidiram voltar para a escola, mas prometeram guardar o segredo da biblioteca secreta. Afinal, algumas histórias só fazem sentido quando são descobertas por quem tem coragem de procurar.” Assim que terminou de escrever, o livro se fechou sozinho. A porta se abriu. E o sol da tarde iluminou o caminho de volta.
Na saída, Túlio olhou para trás. A biblioteca parecia mais viva. Como se tivesse acordado. Como se estivesse esperando por mais leitores curiosos. Ele sorriu. Sabia que aquela era só a primeira de muitas aventuras. Porque quando se tem amigos, imaginação e um pouco de coragem, até o impossível vira capítulo.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
XXXXXXXXX
Redação Sabeis – X