(17/02/26)
Tem gente que acha que erro grande em empresa é tipo fantasma: todo mundo sabe que existe, mas ninguém quer olhar direto pra ele. E quando alguém olha, pior ainda se aponta. Aí vira ameaça. E foi exatamente isso que aconteceu comigo quando descobri um tropeço monumental da alta gestão, daqueles que fazem o financeiro suar frio e o CEO repensar a carreira. Em vez de um “obrigado por salvar a empresa”, ganhei um “pode passar no RH”. Porque, no fim das contas, o problema nunca é o erro. O problema é quem ousa enxergar.
E olha que eu nem pedi pra ser herói. Só fiz o básico: vi o rombo, calculei o estrago, levei pra quem devia resolver. Ingenuidade minha achar que transparência era bem-vinda. A cultura corporativa adora falar de ética, compliance, governança. Mas, na prática, funciona como aquele tio que prega bons costumes no almoço de domingo e estaciona em vaga de idoso no shopping. Todo mundo finge que segue as regras, desde que ninguém mexa no vespeiro dos poderosos.
A parte mais engraçada é que a empresa vivia repetindo que “somos uma família”. Família, no caso, daquelas que expulsam o parente que descobre o segredo sujo guardado no porão. E ainda esperam que você saia sorrindo, agradecendo pela oportunidade. A tal “cultura do pertencimento” só vale enquanto você pertence ao grupo que não incomoda.
O mais curioso é que, no fundo, todo mundo sabia que o erro existia. Só não queriam ser os donos da bomba. É sempre assim: quando o problema é pequeno, vira reunião; quando é médio, vira comitê; quando é gigante, vira silêncio. E quando alguém quebra o silêncio, vira demissão. A lógica é simples: se ninguém fala, ninguém é culpado. E se alguém fala, esse alguém vira o culpado oficial. É quase poético, se não fosse tão absurdo.
E aí entra o lado cômico da coisa. Porque, enquanto eu tentava explicar o tamanho do prejuízo, os chefes me olhavam como se eu estivesse contando fofoca. Pareciam mais preocupados em saber com quem eu tinha compartilhado a informação do que com o fato real. A prioridade não era resolver o problema, era resolver o meu problema. Ou seja: eu. A solução? Me transformar em queima de arquivo. Elegante, discreto, eficiente. Um sumiço administrativo.
O mais irônico é que, depois da minha saída, começaram a circular aquelas frases motivacionais no e-mail: “A verdade liberta”, “Transparência é o caminho”, “Erros são oportunidades de crescimento”. Tudo muito bonito, desde que ninguém leve isso a sério. A empresa adora vender valores que não pratica, como quem compra livro de autoajuda e usa só pra decorar a estante. Fica bonito na foto, mas ninguém abre.
E, claro, os colegas ficaram divididos. Alguns me mandaram mensagens secretas, tipo agentes infiltrados: “Você fez o certo”, “Força aí”, “Aqui dentro todo mundo sabe o que aconteceu”. Outros fingiram que nunca me conheceram. Normal. No ambiente corporativo, amizade é igual Wi-Fi de aeroporto: funciona até você precisar de verdade. E eu não culpo ninguém. A sobrevivência exige silêncio. Indignação demais dá problema. E ninguém quer ser o próximo arquivo queimado.
Mas o que mais me marcou foi perceber como as empresas têm medo da verdade. Não a verdade filosófica, bonita, abstrata. A verdade prática, aquela que mostra que alguém lá em cima errou feio. Essa verdade é perigosa. Ela ameaça bônus, reputações, cargos. E, quando isso acontece, vira inimiga pública número um. E quem a carrega vira cúmplice involuntário. Aí o sistema faz o que sabe fazer: elimina o risco.
No fim das contas, aprendi que, nas grandes corporações, a coragem tem prazo de validade. E que ser honesto demais pode ser considerado falta de alinhamento cultural. A empresa quer gente que pense, mas não tanto. Que questione, mas não demais. Que veja, mas não enxergue profundamente. É um jogo de equilíbrio: seja crítico, mas não crítico demais; seja ético, mas não ético demais; seja competente, mas não competente o suficiente para notar o que não deveria.
E, apesar de tudo, continuo achando graça. Porque, no fundo, é trágico, mas é cômico também. A empresa que me demitiu por apontar um erro gigante continua lá, repetindo seus mantras corporativos, distribuindo brindes com frases inspiradoras e fingindo que tudo está sob controle. E eu sigo aqui, rindo do absurdo, porque rir é a única forma de não enlouquecer.
Cláudio Sampaio (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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